Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavallo enfreado
E não sellado,
Com gente de grão valor.
in: Trovas do Bandarra, estrofe CIV, edição do Porto de 1866
O Sebastianismo, uma forma de messianismo, é a crença e a esperança no regresso do rei D. Sebastião ou, por transposição, na vinda de outro chefe Salvador que virá libertar o povo e restaurar o prestígio nacional. As Trovas do sapateiro Bandarra, uma série de profecias nascidas provavelmente entre os anos 1530 e 1540 e, portanto, antes do nascimento de D. Sebastião, receberam só posteriormente a sua interpretação sebastianista, mas, sob esta forma, influenciaram muito a imaginação do regresso do rei Salvador. Este mito messiânico, que consiste na crença viva e colectiva da vinda do Messias, do Enviado, do Salvador, que não é necessariamente D. Sebastião, embora este seja, por excelência, a figura messiânica do povo português, tem a sua origem numa época histórica difícil para Portugal. São os momentos críticos como o domínio filipino, depois da derrota de Alcácer Quibir, o período da Restauração e as inquietações das invasões francesas, que o alimentam e o fazem crescer, embora tome sempre formas diferentes. Qual é o específico do sebastianismo como forma de messianismo? Como é que nasceu e em que medida esta crença num chefe salvador mudou ao longo da história portuguesa?
O trabalho tem como objectivo dar um panorama do mito sebástico ao longo dos séculos e começa, em primeiro lugar, com uma aproximação ao conceito de mito, como também ao messianismo em geral e ao sebastianismo em particular. Depois de uma análise do contexto histórico do fenómeno, das condições e raízes da crença, ou seja, uma descrição do messianismo pré-sebastianista, segue-se uma apresentação das formas do sebastianismo contemporâneo a D. Sebastião e, sobretudo, uma exposição das interpretações posteriores à morte, não admitida pelos sebastianistas, do jovem rei nos campos de Alcácer Quibir.
Índice
1. Introdução
2. Mito, messianismo, sebastianismo
3. Condições do sebastianismo e messianismo pré-sebástica
4. D. Sebastião e a génese do sebastianismo
5. Do fenómeno político ao fenómeno artístico-literário
6. Conclusão
Objetivos e Temas Principais
Este trabalho tem como objetivo apresentar um panorama do mito sebastianista em Portugal ao longo dos séculos, examinando a sua evolução desde o messianismo pré-sebastianista até às suas manifestações contemporâneas. A análise explora a transição do mito entre a realidade histórica, a crença popular e a sua posterior integração no domínio literário e cultural português.
- O conceito de mito e messianismo.
- A análise do contexto histórico e raízes da crença.
- A figura histórica de D. Sebastião versus o mito.
- A transformação do sebastianismo em fenómeno artístico-literário.
- O impacto das crises nacionais na persistência do messianismo.
Auszug aus dem Buch
4. D. Sebastião e a génese do sebastianismo
Como já vimos a imagem do D. Sebastião do mito, vale a pena confrontarmo-la agora, brevemente, com a do D. Sebastião histórico, real.
Quanto às suas características físicas, estas não correspondem à imagem mítica e D. Sebastião sofreu, provavelmente por causa dos casamentos consanguíneos em gerações sucessivas e pelo facto de os seus pais terem sido primos carnais, de uma constante enfermidade desde os onze anos, como também de tonturas, mal-estar e desmaios. Oposto a esta doença, ele teve um grande orgulho e incontido desejo de aventura, até um certo egocentrismo narcisista. Há quem diga que foi a sua sede de glória a levá-lo à desastrosa empresa de África e, portanto, foram antes de mais interesses pessoais do que razões de Estado. Foi o desejo de aventura e de combate que se casou com o plano de dilatar a fé cristã. Na opinião de Mário de Castro, o rei não se soube sacrificiar pela sua pátria: “Ir à África não foi sacrifício, porque nisso se haviam polarizado obstinadamente os seus desejos; sacrifício teria sido casar, para deixar assegurada a continuidade dinástica e com ela a independência nacional (...)”.
Resumo dos Capítulos
1. Introdução: Define o sebastianismo como uma forma de messianismo e estabelece o objetivo de analisar a evolução histórica e o impacto deste mito na identidade portuguesa.
2. Mito, messianismo, sebastianismo: Analisa os conceitos teóricos de mito e messianismo, discutindo como o sebastianismo se enquadra nestas definições e o seu papel na cultura portuguesa.
3. Condições do sebastianismo e messianismo pré-sebástica: Explora os fatores históricos e as raízes da crença messiânica que antecederam o nascimento de D. Sebastião, destacando o papel das Trovas de Bandarra.
4. D. Sebastião e a génese do sebastianismo: Confronta a figura histórica de D. Sebastião com o mito, abordando a sua educação, personalidade e as circunstâncias da sua morte em Alcácer Quibir.
5. Do fenómeno político ao fenómeno artístico-literário: Descreve a transição do sebastianismo de uma arma política de resistência para um tema recorrente na literatura e cultura portuguesa ao longo dos séculos.
6. Conclusão: Sintetiza a longa história do messianismo em Portugal, enfatizando a sua persistência como uma característica singular do pensamento popular português diante de crises nacionais.
Palavras-chave
Sebastianismo, Messianismo, Mito, D. Sebastião, Encoberto, Trovas de Bandarra, Portugal, História, Identidade, Crise, Restauração, Literatura, Cultura, Profetismo, Reinado.
Perguntas Frequentes
Sobre o que trata esta obra fundamentalmente?
A obra analisa a natureza, a origem e a evolução do sebastianismo, apresentando-o como um mito messiânico enraizado na consciência coletiva de Portugal, que ressurge historicamente em tempos de crise.
Quais são os temas centrais abordados no texto?
Os temas centrais incluem o conceito de messianismo, o contraste entre a figura histórica de D. Sebastião e o mito do "Encoberto", a influência das Trovas de Bandarra e a transformação política e literária do mito.
Qual é o objetivo principal desta pesquisa?
O objetivo é oferecer um panorama estruturado da trajetória do mito sebástico, desde as suas bases religiosas e proféticas até à sua consolidação como um elemento cultural e literário indissociável da identidade portuguesa.
Qual metodologia o autor utiliza para esta análise?
O autor utiliza uma abordagem historiográfica e analítica, recorrendo a fontes teóricas, documentais e literárias para traçar o percurso do fenômeno desde as origens até ao século XIX e XX.
O que é tratado especificamente no corpo do trabalho?
O corpo do texto aborda o messianismo pré-sebastianista, as tensões nacionais do século XVI, o papel das profecias na mobilização política e a transição do sebastianismo do domínio político para o literário.
Quais palavras-chave definem melhor este documento?
As palavras-chave que melhor definem a obra são Sebastianismo, Messianismo, Mito, D. Sebastião, Encoberto e Identidade nacional.
De que forma a educação de D. Sebastião influenciou a criação do mito?
A educação do rei, pautada pelo proselitismo religioso, pelo temor a Deus e pela convicção de invencibilidade, contribuiu para que, após a sua morte, o povo projetasse nele a figura do Salvador redentor.
Por que a figura do "Encoberto" foi tão persistente na história de Portugal?
A persistência do "Encoberto" deve-se à sua função de "válvula de escape" psicológica, que oferecia esperança coletiva ao povo português em períodos de ocupação estrangeira, crise econômica ou instabilidade política.
- Quote paper
- Thomas Strobel (Author), 2002, O Sebastianismo, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/114597