Dos cortiços à neofavela: uma evolução literária em Cidade de Deus


Term Paper, 2007
21 Pages, Grade: 1,7

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Sumário

Resumo

1 - Introdução

2 - Com uma lupa social focada na favela
2.1 - Um pouco de história

3 - Do naturalismo à Rubem Fonseca: o brutalismo e o caminho livre para Cidade de Deus
3.1 - Feliz ano novo (1975)

4 - O Brutalismo e a narracao de Cidade de Deus

5 - O Narrador de Cidade de Deus

6 - Conclusão

7 - Referências

Resumo

Partir de uma visão da sociedade Brasileira do século XX e com uma lupa que se foca na história da favela para obervar a evolucao de uma literatura que, iniciada com o naturalismo, vai se transformar nos contos de Rubem Fonseca e se modificar ainda mais no romance Cidade de Deus. Na análize literária, sempre unida da visao social, é comentada a distância estética utilizada tanto por Fonseca quanto por Paulo Lins, mostrando as igualdades e as diferencas entre os dois.

Plavras chave: sociedade, favela, literatura, naturalismo, narracao, Cidade de Deus.

1 - Introdução

Este trabalho tem como objetivo observar a literatura de Paulo Lins mantendoo em vista a questão social. Para tanto, endenti ser necessário falar sobre a sociedade Brasileira e, também, de certa forma, a mundial, no que diz respeito aos avanços do capitalismo, para poder revelar os efeitos colaterais e negativos que ocorre nas periferias do sistema capitalista mundial. Com este intuito, observar a história do Brasil no século XX torna-se importante.

Outro objetivo do trabalho é analisar a narração da obra Cidade de Deus. Esta narrativa, como veremos nos capítulos seguintes, relaciona-se com a realidade dos marginalizados da sociedade brasileira, representando, de um lado, a história à qual a matéria está ligada, e, de outro, a vida dos personagens, a vida crua dos moradores da favela. Paralelamente, esta representação do cotidiano violento da favela feita através de um romance, quer dizer, através de uma história fictícia, é realizada através de uma narração que procura de um lado relatar a realidade da favela, história e violência, e, de outro, pretende apresentar-se como obra literária.

No que diz respeito à narração, considerei importante situá-la em um contexto literário contemporâneo como um seguinte passo em relacao a literatura iniciada no período militar brasileiro. Assim, observo a narrativa de Paulo Lins relacionando-a com literatura de Rubem Fonseca e, mais distante, relaciono essas duas formas narrativas com a literatura naturalista.

Para tanto, escolho duas maneiras de observar a literatura de Rubem Fonseca. A primeira vem a ser a literatura deste como uma evolução do naturalismo, a segunda a partir da crítica ao seu tempo formulada por Bosi, cujo termo Brutalista desenvolve a observação da obra relacionando-a com a sociedade. Seguindo, entro em uma análise um pouco mais detalhada da narração de Cidade de Deus, entendendo o discurso do narrador como sendo apresentado de uma forma ambivalente, o que caracteriza a novidade em relação a literatura de seu antecessor, a literatura Brutalista.

2 - Com uma lupa social focada na favela

O livro que aqui vamos estudar tem uma grande ligação com a realidade Brasileira do século XX. O romance destaca a vida dos moradores da favela Cidade de Deus, dos bandidos, dos trabalhadores, dos malandros e dos bixo-soltos. Em uma visão geral, poderíamos dizer que mostra a vida daqueles que estão isolados em sociedade; os favelados, os pobres.

Difícil começar um trabalho sobre o romance Cidade de Deus sem mencionar que seu autor, Paulo Lins, tem origens no local onde o espaço narrativo se encontra. Paulo Lins cresceu na favela Cidade de Deus, onde uma tia lhe havia apresentado à arte da leitura. Lins deve haver sido deveras influenciado pelos textos que lhe dava sua tia, pois acaba iniciando os estudos na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lins viria a participar ali como bolsista em um projeto realizado pela antropóloga Alba Zaluar. Por ser morador e participar de alguns blocos de samba na favela Cidade de Deus, tinha acesso à vida dos bandidos do local, o que facilitava as entrevistas que deveria realizar para a pesquisa antropológica. Quando a antropóloga Alba Zaluar pediu a Lins que escrevesse um texto sociológico ou antropológico, este respondeu que escreveria, no máximo, um poema. Vejamos um trecho de sua entrevista com a revista Caros Amigos:

“Fiz um poema, demorei três meses para fazer, e ela [Zaluar] mostrou ao Roberto Schwartz, aqui em São Paulo. Ele ligou pra mim, fiquei todo contente, “pô, o Roberto ligou pra mim”, era um crítico, eu estava na faculdade, já tinha lido quase a obra toda dele, na faculdade você é obrigado a ler o Roberto. E ele perguntou: “Permite publicar o poema na revista do Cebrap?” Publicou o poema e deu o aval pra eu escrever um romance. Aí, minha vida complicou. Escrever um romance não é brincadeira, não.”[1]

Paulo Lins já era um poeta e acabava de ganhar apoio de um crítico de peso, o que lhe impulsionaria ao início da sua obra literária. Ele mistura então diversos elementos para escrever sua obra de ficção: a experiência obtida como morador da Cidade de Deus, a proximidade que tinha com os bandidos e as entrevistas realizadas; o trabalho como pesquisador, que tinha como objetivo estudar as organizações populares e o significado que elas atribuíam à pobreza; e, por fim, o trabalho ficcional, poético, literário, sendo reconhecido e incentivado por um grande crítico da atualidade.

As características da narração do romance não escondem sua ligação e proximidade com a realidade. Por esse motivo entendi ser de importância uma breve apresentação da história da favela, bem como comentários ao longo de todo o trabalho que relacionam o estudo da literatura a diversos aspectos sociais. Assim fica mais claro não somente a evolução desta literatura que acompanha, a final, a evolução de uma sociedade, mas também as características narrativas, que serão mais detalhadamente estudadas no capítulo sobre a narração de Cidade de Deus.

2.1 - Um pouco de história

A história das favelas no Rio de Janeiro pode ser relacionada com a formação dos Cortiços. Estes foram ocupados inicialmente por ex-combatentes da guerra do paraguai, na altura da década de 1870. Entre eles, muitos eram negros que ganharam a alforria por haver participado da guerra do paraguai. Diversos combatentes ficaram sem local onde viver e, terminada a guerra, foram alojados provisoriamente na área central do Rio de Janeiro, onde viriam mais tarde a formar-se os cortiços Não diretamente relacionado aos cortiços, duas décadas mais tarde, depois da guerra de canudos, ex-combatentes são alojados nos morros do centro da cidade, o que parece haver influenciado o início da formação das favelas.

No início do século XX a economia do Rio de Janeiro efervescia com o sucesso do mercado cafeeiro. Cidade portuária e de privilegiada posição política e econômica, o Rio de Janeiro possuía uma enorme população, um grande mercado consumidor e mão-de-obra disponível. Crescia como cidade civilizada e desejava estar altura de avanços dignos dos países europeus.

O desejo de avanço civilizatório almejado cegamente pelas classes dominantes da época levariam o estado a tomar medidas insensatas, cujos efeitos seriam sentidos até os nossos dias. Médicos, engenheiros, políticos e a elite carioca pareciam estar em consenso no que diz respeito à importância da questão da higiene na cidade, bem como sua restauração Mais ou menos neste período seria iniciada uma verdadeira campanha contra os cortiços da cidade. Estes eram vistos como o lócus da pobreza, onde viviam alguns trabalhadores, e um grande número e vadios e malandros, a chamada “classe perigosa”. Os cortiços eram tidos como um verdadeiro inferno social, local de vagabundagem e crime, potenciais originadores de epidemias, constituindo assim uma ameaça às ordens moral e social. Os cortiços foram então percebidos como espaço de contágio das doenças e do vício e logo condenados pelo discurso médico-higienista. Logo surgiram medidas administrativas: primeiro, uma legislação proibindo a construção de novos cortiços no Rio; em seguida, uma verdadeira “guerra” que resultou na destruição do maior de todos, o “Cabeça de Porco”; e, finalmente, a grande reforma urbana ocorrida entre 1902 e 1906, que se propunha a sanear e civilizar a cidade acabando com as habitações anti-sanitárias. Assim seriam destruídos diversos cortiços na cidade.

Um caso interessante é o do morro da Favella. Este chegou a ser higienizado quando da campanha higienista de Oswaldo Cruz. O morro entrou para a história por sua associação com a guerra de Canudos, por abrigar ex-combatentes que ali se instalaram para pressionar o Ministério da Guerra a lhes pagar os soldos devidos. O morro da Favella passa a emprestar seu nome aos aglomerados de casebres construídos em terrenos públicos ou de terceiros, que começavam a se multiplicar no centro da cidade. Após a segunda década do século vinte a imprensa vai tomar o nome emprestado e começar a empregá-lo para designar as aglomerações pobres, de ocupação ilegal e irregular, chamando-os de favela.

Quando a presença da favela tornou-se evidente, fez-se mister a criação de medidas que procurassem o controle do crescimentos destas, e até mesmo a sua destruição Um exemplo é o código de obras, escrito em 1937, que reconhece a existência das favelas e propõe medidas rigorosas. Este proibia a formação de favelas e a construção de novos casebres nas já existentes. O Código deixava claro que a prefeitura usaria de todos os meios para fazer valer as leis, reservando-se o direito de demolir novos casebres formados. Que este código muito embora na prática haja desencadeado poucas intervenções práticas, serve aqui como exemplo de como era visto a formação das favelas no Rio de Janeiro.

Seja como for, o centro do Rio de Janeiro foi vítima não somente de uma política higienizadora, mas também de uma política de urbanização e “limpeza” do centro da cidade. Assim, havia a idéia de construir apartamentos que seriam sustentados por um plano de hipotecas, onde os moradores de cortiços e favelas poderiam viver e os quais deveriam pagar com juros baixos. Obviamente os planos mirabolantes para dar moradia não funcionaram de maneira satisfatória, e o crescente número de pobres levaria a uma situação cada vez mais insustentável.

[...]


[1] Lins, 2003

Excerpt out of 21 pages

Details

Title
Dos cortiços à neofavela: uma evolução literária em Cidade de Deus
College
http://www.uni-jena.de/  (Romanistik)
Grade
1,7
Author
Year
2007
Pages
21
Catalog Number
V137101
ISBN (eBook)
9783640445141
ISBN (Book)
9783640444991
File size
487 KB
Language
Portugues
Tags
Cidade, Deus
Quote paper
Student Turian da Silva (Author), 2007, Dos cortiços à neofavela: uma evolução literária em Cidade de Deus, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/137101

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