Rádio Universitária do Minho (1984 – 2001): Um estudo sociológico


Bachelor Thesis, 2007
39 Pages, Grade: 18 out of 20

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Índice

Introdução

1 - História do Movimento das Rádios Pirata
1.1 - A rádio como meio de comunicação de massas e o surgimento das rádios pirata
1.2 - A rádio em Portugal: o movimento das rádios livres

2 - Problemática e Metodologia da Investigação
2.1 - Perspectiva teórica: o interaccionismo e a grounded theory
2.2 - Estratégia metodológica qualitativa
2.3 - Técnicas de investigação utilizadas

3 – Análise das Entrevistas
3.1 – Caracterização dos entrevistados
3.2 – Processo de Criação da Rádio Universitária do Minho
3.3 – Objectivos da Rádio Universitária do Minho e sua evolução
3.4 – Grau de independência da Rádio Universitária do Minho
3.5 – Influência da Rádio Universitária do Minho na comunidade

4 – Conclusão

5 – Bibliografia

Introdução

Com a criação da rádio no final do século XIX[1], deu-se início à era da comunicação de massas. Através das ondas da rádio foi possível, pela primeira vez, fazer chegar uma mensagem a um grande número de pessoas. Não por acaso “os primeiros estudos sociológicos, psicológicos e filosóficos sobre os meios de comunicação de massa foram feitos quando se deu a expansão das ondas de rádio. Mais do que o telefone, o telégrafo sem fio e o fonógrafo, o rádio despertou interesse, porque com ele iniciou-se efetivamente a informação e a comunicação de massa à distância.” (Chaui, 2005)[2]

A partir dos anos 30, a rádio começou a ser encarada como um veículo de transmissão propagandística do capitalismo. Thomas Adorno e Max Horkheimer, na obra Dialética do Iluminismo (1947), sugerem que “as organizações mantenedoras dos grandes meios de comunicação social são, fundamentalmente, capitalistas, portanto visam – acima de tudo – o lucro financeiro, deixando de lado a idéia original de democratização da cultura, passando, assim, à venda e distribuição da mesma em larga escala na malha populacional.” (Adorno, 1999).[3] Partilhando esta visão, Jerry Mander[4] afirma que a televisão, tal como a rádio, não pode ser considerada um meio de comunicação democrático, devido ao seu carácter económico e tecnológico.

Embora as abordagens críticas sejam relevantes, preferimos ter em conta igualmente uma perspectiva interaccionista estudando as configurações adoptadas pelas diversas organizações nomeadamente em contexto de crise, como é o caso do surgimento das rádios livres.

Na base destes pressupostos gerais, chegámos a uma questão inicial genérica: poderá a rádio ser um meio de comunicação democrático promotor da inovação estética e da cidadania activa?

Sendo assim, através deste estudo, pretendemos saber até que ponto a experiência da Rádio Universitária do Minho (RUM), como orgão de comunicação independente, foi ou não subjugada por estratégias de ordem comercial, entre 1984 e 2001.

Foi adoptada uma metodologia qualitativa, que consistiu na observação participante natural e na realização de entrevistas semi-directivas. Foram realizadas oito entrevistas a colaboradores da Rádio Universitária do Minho, que desempenharam diferentes papéis na sua construção. Nalguns casos, foi possível atingir a saturação, visto existir um grande consenso nos conteúdos das informações prestadas.

Resumo

No primeiro capítulo, faz-se uma descrição muito geral do contexto histórico – o movimento das rádios livres que esteve na base da Rádio Universitária do Minho.

Em seguida, no segundo capítulo, tendo como objectivo aprofundar a questão inicial, define-se o modelo de análise, que, sendo baseado numa epistemologia e metodologia qualitativa, tem uma componente indutiva forte (grounded theory). Finalmente, são explicados os métodos e instrumentos de investigação utilizados.

No terceiro capítulo, são caracterizados os actores sociais entrevistados. Posteriormente são apresentados e analisados os dados recolhidos por unidades temáticas: o processo de criação da Rádio Universitária do Minho, a evolução dos seus objectivos, o seu grau de independência e a sua influência na comunidade envolvente.

No capítulo final, é apresentada a conclusão deste trabalho.

Capítulo 1 - História do Movimento das Rádios Pirata

1.1 A rádio como meio de comunicação de massas e o surgimento das rádios pirata

No início do século XX desenvolveram-se tecnologias para colmatar as dificuldades de comunicação à distância. Rapidamente a rádio se tornou um meio de comunicação de massas, numa época em que a sociedade ansiava por “informação, entretenimento” e existia “também uma ambição dos governos em chegar às populacões com maior facilidade” (Cunha)[5]. Nos anos 20, o aparelho de rádio doméstico foi introduzido nos lares e nos automóveis norte-americanos. Nessa altura surgiram os primeiros estudos sobre a rádio, onde se revelaram as potencialidades e a influência que este meio de comunicação é capaz de alcançar.

Um exemplo dessa influência é a utilização da rádio na altura da Segunda Guerra Mundial. “Nos Estados Unidos, a partir de 1932, o rádio seria a principal forma de comunicação entre o recém eleito Presidente Franklin Roosevelt e o povo norte-americano (…). Por isso, também, passou para a história dos Estados Unidos como “o Presidente do rádio” (…) Na Alemanha, no início dos anos 30, Joseph Goebbels, mentor e executor das técnicas nazistas de propaganda, encontrou na rádio o meio ideal de propagação ideológica. (…) A rádio foi meio essencial de comunicação e uma das mais expansivas formas de resistência durante a Segunda Guerra Mundial, com as históricas transmissões realizadas pela BBC de Londres para os países ocupados pelo exército nazista no continente europeu. Os discursos mais famosos do Primeiro Ministro Winston Churchill durante a guerra foram lidos no microfone da BBC, entre os quais This was the finest hour, no verão de 1940” (Moreira, 1998)[6]

A rádio passou para segundo plano com a invenção da televisão. “Neste momento em que enfrenta a expansão da televisão, a rádio responde com as rádios livres. Elas são elementos fundamentais nas lutas políticas de esquerda, em diferentes países, especialmente na Europa, e também surtem grande efeito quando utilizadas por estudantes.” (Cunha)[7]

O movimento de rádios pirata ou rádios livres como também eram conhecidas, começou nos anos 60 em Inglaterra com o intuito de combater o monopólio estatal das telecomunicações representado pela BBC, British Broadcasting Corporation, controlada pelo estado. Foram montadas emissoras “dentro de barcos para emitir desde fora das águas territoriais da Grã-Bretanha, como forma de escapar ao âmbito estatal.”[8]. “These stations were not technically illegal because they were broadcasting from international waters” (Offcom Office of Communications, 2007).[9] Na década seguinte, as rádios pirata da Inglaterra inspiraram “o movimento das rádios livres em outros países da Europa, em especial Itália e França, sempre com a mesma meta: dar voz aos jovens que não conseguiam espaço nos canais que operavam autorizados pelo Estado” (Moreira, 1998)[10]

As rádios pirata “baseavam-se no improviso, criando um cenário de comunicação de novidade, baseado numa linguagem popular, distante dos formatos de comunicação institucional da maior parte das rádios. Conquistaram o direito a um espaço próprio e irromperam com um novo tipo de comunicação, alternativo ao sistema radiofónico legalizado. Surgiram com o objectivo de privilegiar os interesses e as necessidades culturais, sociais e educacionais das regiões que serviam, e que as rádios nacionais não tinham interesse ou não podiam cobrir, ao mesmo tempo que privilegiavam a comunicação com os ouvintes (….) Estas rádios inventaram e experimentaram novos formatos, preenchendo espaços de criatividade que tinham sido deixados em aberto pelas rádios nacionais” (Cordeiro, 2003)[11]

1.2 A rádio em Portugal: o movimento das rádios livres

Em Portugal, a primeira rádio (Rádio Hertz) foi criada em 1914, mas apenas em 1925 começaram as primeiras emissões radiofónicas de carácter regular. Em 1930 foi fundada a Direcção Geral dos Serviços Radioeléctricos, dependente dos CTT, Correios, Telégrafos e Telefones. Passou a ser considerado monopólio estatal todo o serviço de radiotelefonia, radiodifusão e radiotelevisão. Em 1933, realizaram-se as primeiras emissões experimentais da Emissora Nacional, que se assumiu como a voz do regime, e foi aproveitada pelo Estado para fins propagandísticos.

No caso das rádios pirata ou livres surgidas nos anos 80 em Portugal, assistiu-se a um momento de crise no modelo da rádio mainstream que era adoptado nas rádios nacionais da altura.

Em Portugal as primeiras rádios pirata apareceram nos anos 70 do século XX. “Em 1977, na Conferência Administrativa Mundial de Radiocomunicações, o limite superior de banda destinada ao FM é estendido a 108MHz, aumentando para cerca de 400 o número possível de emissores regionais/locais. Em meados dos anos 80, dá-se o “boom” das rádios livres ou “rádios pirata”, uma série de estações que emergem num quadro de ausência de qualquer disciplina legal.”[12] Em 1987, surgiu a Lei da Rádio, que permitiu o aparecimento de rádios locais legais. O governo abriu um concurso público para a atribuição de alvarás, e foram autorizadas a emitir 314 estações. Pensa-se que terão estado em funcionamento, entre 1977 e 1988, perto de 800 estações pirata de radiodifusão. Em 1989 cerca de 50% dessas rádios foram legalizadas.

Capítulo 2 - Problemática e Metodologia da Investigação

2.1 Perspectiva teórica: o interaccionismo e a grounded theory

Partimos da abordagem indutiva, ou seja, partimos de livres observações, deixando que dimensões e categorias de interesse emergissem progressivamente durante a recolha e análise dos dados. “Os métodos qualitativos devem , eles próprios, ser tomados como caminhos para a descoberta de teorias, conceitos, hipóteses e proposições, de modo algo indutivo, partindo-se dos dados e da observação, e não somente de marcos teóricos e conceptuais existentes”. (Pais, 2002)[13]

Em síntese, a nossa abordagem insere-se na perspectiva do interaccionismo simbólico e o desenvolvimento da teoria da pesquisa no terreno ou grounded theory.

2.2 Estratégia metodológica qualitativa

Para a realização deste estudo considerámos adequada a adopção da metodologia qualitativa, cuja base assenta na abordagem interpretativa da realidade social. A pesquisa qualitativa, segundo Strauss & Corbin, “consiste na pesquisa que produz resultados não provenientes de procedimentos estatísticos, referindo aos estudos sobre a vida do indivíduo, experiências de vida, comportamentos e emoções. Também quanto ao funcionamento organizacional, movimentos sociais, fenómeno cultural e interação entre nações.” (Strauss e Corbin, 1998)[14]

Esta metodologia permite identificar as experiências subjectivas dos actores sociais e aprofundar questões que à partida não estavam incluidas no projecto inicial de investigação, dando prioridade aos pontos de vista dos indivíduos.

Optamos por esta metodologia, pois como refere Heloisa Helena T. de Souza Martins, a pesquisa qualitativa “privilegia a análise de microprocessos, através do estudo das ações sociais individuais e grupais, realizando um exame intensivo dos dados, e caracterizada pela heterodoxia no momento da análise. Enfatiza-se a necessidade do exercício da intuição e da imaginação pelo sociólogo, num tipo de trabalho artesanal, visto não só como condição para o aprofundamento da análise, mas também - o que é muito importante - para a liberdade do intelectual.” (Martins, 2004)[15]

“Os estudos sociológicos de natureza qualitativa, se adequadamente desenvolvidos, são fiáveis e os desenhos de pesquisa, por serem abertos e flexiveis, dão-nos melhor conta das multiplas realidades interaccionantes. Em particular, possibilitam-nos a revelação interpretativa do significado das várias manifestações da quotidianeidade através de uma articulação sistemática das estruturas de significado subjectivo que regem as maneiras de ser, de pensar e agir dos indivíduos em diferentes contextos sociais” (Pais, 2002)[16]

É importante afirmar que as metodologias qualitativa e quantitativas não se excluem, pelo contrário, complementa-se. “A oposição entre metodologias quantitativas e metodologia qualitativas tem cada vez menos sentido, até pelas formas “quantitativas” de tratamento do “qualitativo””. (Guerra 2007)[17] Aliás “na convenção anual da American Psychological Association em 1993, um debate sobre o tema levou à conclusão de que “todas as pessoas que escrevem hoje sobre metolodogia reconhecem que há um papel para ambos os métodos, quantitativo e qualitativo,” na ciência.” (Adler, 1993)[18]

2.3 Técnicas de investigação utilizadas

A investigação que realizamos assentou, em primeiro lugar, na observação participante natural. "Por observação participante nós entendemos o método em que o observador participa da vida diária das pessoas em estudo, tanto abertamente no papel de pesquisador, como assumindo papéis disfarçados, observando, ouvindo e questionando as pessoas no espaço de algum tempo." (Becker, Geer e Simmons, 1969)[19].

Posteriormente, foram realizadas entrevistas semi-directas a oito protagonistas do projecto Rádio Universitária do Minho. O critério de escolha dos entrevistados assentou na tentativa de ter uma amostra diversificada de actores sociais no que diz respeito à sua função dentro da instituição RUM e saber se as visões desses protagonistas eram divergentes. “A diversidade relaciona-se com a garantia que a utilização das entrevistas se faz tendo em conta a heterogeneidade dos sujeitos (ou fenómenos) que estamos a estudar. De facto, na pesquisa qualitativa, procura-se a diversidade e não a homogeneidade, e, para garantir que a investigação abordou a realidade considerando as variações necessaries, é preciso assegurar a diversidade dos sujeitos ou das situações em estudo”[20] (Guerra, 2006)

Realizadas as entrevistas procedemos à análise de conteúdo, confrontando as questões previamente enunciadas e o material recolhido. “Nesse sentido a análise de conteúdo tem uma dimensão descritiva que visa dar conta do que nos foi narrado e uma dimensão interpretativa que decorre das interrogações do analista face a um objecto de estudo, com recurso a um sistema de conceitos teórico-analíticos cuja articulação permite formular as regras de inferência”[21] (Guerra, 2006). Foi adoptada a abordagem indutiva.

Nalguns temas, foi possível atingir uma saturação nas respostas em que os entrevistados se começavam a repetir.

[...]


[1] Pensa-se que a criação da rádio se deve ao físico italiano Guglielmo Marconi (1874-1937), embora haja quem sustente que quem inventou a rádio foi o sérvio Nicolas Tesla (1856-1943).

[2] citado por Attílio (2006): 2

[3] citado por Attílio (2006): 5

[4] Attílio (2006): 5

[5] Cunha: 3

[6] Moreira (1998): 11,12

[7] Cunha: 3

[8] Nunes (1995):

[9] Offcom Office of Communications (2007): 12

[10] Moreira (1998): 14

[11] Cordeiro (2003): 260

[12] Citado em: http://www.ics.pt/index.php?op=cont&ps=1&area=329&Pid=78

[13] Pais (2002): 154

[14] Strauss e Corbin (1998), citado por Nico (2006)

[15] Martins (2004): 289

[16] Pais (2002): 154

[17] Guerra (2006): 7

[18] Adler, 1993: 16

[19] Becker, Geer e Simmons (1969): citado por Haguette (1995): 72

[20] Guerra, 2006: 41

[21] Guerra, 2006: 62

Excerpt out of 39 pages

Details

Title
Rádio Universitária do Minho (1984 – 2001): Um estudo sociológico
College
University of Minho  (Instituto de Ciências Sociais)
Course
Sociology
Grade
18 out of 20
Author
Year
2007
Pages
39
Catalog Number
V156106
ISBN (eBook)
9783640687763
ISBN (Book)
9783640687879
File size
563 KB
Language
Portugues
Tags
Rádio, Universitária, Minho, RUM
Quote paper
Sofia S Oliveira (Author), 2007, Rádio Universitária do Minho (1984 – 2001): Um estudo sociológico, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/156106

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