Análise do poema “O Navio Negreiro”, de Castro Alves


Essay, 2010
10 Pages, Grade: "-"

Excerpt

“O Navio Negreiro”, de Castro Alves

Tendo-nos vindo a interessar progressivamente pela literatura de viagens, relemos com agrado alguns títulos da colecção “98 mares” surgida aquando da Expo 98. Detivemo-nos no texto de Castro Alves, “O Navio Negreiro”[1].

Numa pesquisa sobre a biografia deste autor de existência breve, há aspectos que são sublinhados como a mestria do seu discurso, a sua inovação estilística não sem ser apontado como um imitador de Victor Hugo.

Nascido em Muritiba (Baía), em 1847, fez os seus estudos secundários na Baía e estudou direito primeiro no Recife e depois em São Paulo. Integrado numa juventude universitária com um forte papel na vida literária e política da nação, Castro Alves veio a beneficiar dessa atmosfera, destacando-se pelo seu talento lírico e pelo empenho em defesa da ideologia abolicionista.

Poeta romântico perfeitamente enquadrado na sua época, Mário de Andrade considera-o, juntamente com Gonçalves Dias, “entre os capítulos culminantes da rapsódia nacional” (Andrade, 1979: 346).

Tomou publicamente posição contra a escravatura em 1863, publicando numa folha académica o poema “A canção do Africano”. É só após a lei Euzébio Queiroz de 1850 que proibia o comércio de escravos e a lei de 1854 que impedia o desembarque de navios negreiros nas costas brasileiras, que o poema que iremos analisar foi publicado. Podemos dizer que se trata de uma poesia “póstuma” à existência de um facto que terminara já aquando do surgimento do poema.

Num primeiro momento faremos uma análise linear do poema “O Navio Negreiro” e, num segundo momento, tentaremos estabelecer uma relação entre essa análise e o subtítulo “Tragédia no Mar” atribuído ao poema, aludindo a uma certa relação intertextual com uma tela de Johann Moritz Rugendas.

1. Análise linear

O poema “O Navio Negreiro”, de António de Castro Alves parece aludir não só a temáticas românticas tais como a liberdade do homem, como também ao tratamento profundamente sensorial e emotivo da natureza. Diversificando a forma ao longo do extenso poema, o poeta privilegia as sextilhas e os decassílabos, fazendo alternar métricas mais breves e mais longas.

Dividido em seis secções distintas, e de extensão diversa, o poema vai de uma visão do ambiente envolvente para o interior do navio negreiro para, finalmente, terminar com uma crítica severa à nação que permite actos tão infames quanto a escravidão.

Na primeira secção, o sujeito poético faz a descrição do cenário repetindo anaforicamente a localização “'Stamos em pleno mar” no início das quatro primeiras quadras. Os dois espaços, o céu e o mar, cedo se confundem: “Doudo no espaço / Brinca o luar [...] / E as vagas após ele correm... cansam” num movimento de agitação para o que contribuem os verbos “correm”, “cansam”, “saltam” ou o adjectivo “inquieta”. As comparações, figura recorrente em todo o poema, surgem desde a primeira estrofe: Como turba de infantes inquieta”, “como espumas de ouro”, assim como a animalização dos elementos da natureza (“Brinca o luar – dourada borboleta”, “Neste saara os corceis o pó levantam”) que metaforicamente estabelece relações de similitude.

A confusão dos elementos (“Dois infinitos /Ali se estreitam num abraço insano”), o mar e o céu, faz-‑se por um traço comum (“num abraço insano”) que recupera o adjectivo “doudo” do primeiro verso e parece abarcar tanto características físicas (“azuis, dourados”) perceptíveis ao olhar como psicológicas (“plácidos, sublimes”) para enfim se tornar numa unidade: “Qual dos dous é o céu? qual o oceano?”).

O sujeito poético concentra a atenção do leitor no barco nomeando-o e aludindo a alguns dos seus elementos, construindo, por isso, um campo semântico: “abrindo as velas”, vibrações marinhas”, “veleiro brigue”. Por uma comparação entre o veleiro e “as andorinhas” continua a estabelecer-se uma relação muito forte entre o mar e o céu, comungando os dois do mesmo movimento.

As questões retóricas são retomadas na quinta estrofe desta secção: para as dúvidas apresentadas aceita-se que não haja resposta (“Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?”) e o espaço marítimo toma a forma de um deserto (“neste saara”) atravessado metaforicamente pelas ondas (“os corceis o pó levantam”) que “não deixam traço”.

O sujeito poético, observador desse quadro numa visão na vertical (“Embaixo – o mar em cima – o firmamento”), regozija-se (“Bem feliz quem...”) por poder contemplar o sublime da paisagem (“Sentir deste painel a majestade!”) sem limites (“E no mar e no céu – a imensidade!”).

O discurso claramente expressivo[2] (“Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!”) transmite sensações de prazer perceptíveis através de diferentes sentidos, táctil (“que doce harmonia traz-me a brisa!”) e auditivo (“Que música suave ao longe soa!”; “como é sublime um canto ardente!”). Dirigindo-se a Deus (“Meu Deus!”), o sujeito poético tem já como que a antevisão do canto dos náufragos num mar imenso e que não se detém (“Pelas vagas sem fim boiando à toa!”).

Restringindo-se ao veleiro, o sujeito poético dirige-se primeiro aos “Homens do mar!” para depois particularizar pela adjectivação “rudes marinheiros” com que os caracteriza fisicamente e quanto à sua diversidade de nacionalidade (“dos quatro mundos!”). No entanto, todos estão unidos num passado comum (“Crianças que a procela acalentara”), apresentando-se o mar como o destino (“No berço desses pélagos profundos!”).

Na estrofe seguinte, de novo um apelo sob a forma imperativa (“Esperai! Esperai!”). O sujeito poético aparece explicitamente sob a forma do pronome pessoal sujeito (“deixai que eu beba...”) que se nutre da sua criação (“Esta selvagem, livre poesia”), caracterizada através de uma hipálage e que é ao mesmo tempo canto acompanhado pela música do mar (“Orquestra – é o mar que ruge pela proa / E o vento, que nas cordas assobia”). As sensações auditivas são aqui evidentes, o que os verbos “ruge” e “assobia” denotam.

As questões retóricas são retomadas em dois versos seguidos, nos quais o sujeito poético busca uma justificação através de uma construção anafórica (“Por que foges assim...? / Por que foges do...?”). Segue-se-lhe a expressão de um desejo (“Oh! quem me dera acompanhar-te”), estabelecendo uma comparação entre “a esteira” e o “doudo cometa”, relação entre o mar e o ar que existe desde o início do poema numa imagem de loucura de que de novo o adjectivo “doudo” é a expressão.

Na última quadra desta secção é introduzido um novo elemento, o “albatroz”, designado como “águia do oceano”, interlocutor a quem o sujeito poético faz um apelo: “dá-me estas asas” no sentido do seu desejo de movimento. Conhecendo nós a influência da poesia francesa do século XIX na literatura brasileira pós-Independência[3], não podemos deixar de pensar num poeta como Charles Baudelaire e, mais especificamente, no seu poema “L’Albatros”[4]. Enquanto símbolo da poesia, o albatroz adquire um carácter demoníaco quando posto em paralelo com “Leviathan”[5]. Tal como no poema de Baudelaire, a ave é companheira do poeta e com ele desempenha a mesma tarefa de transmissor de mensagem. Símbolo de liberdade (“Sacode as penas [...] / dá-me estas asas”), ele estabelece, pela associação com “Leviathan”, um elo estreito com o espaço marítimo, dominando-o.

Na segunda secção, igualmente descritiva, o sujeito poético vai concentrar-se nos marinheiros. Estes trocaram o lar em terra por um novo lar no mar porque o ritmo deste é poesia (“Ama a cadência do verso / Que lhe ensina o velho mar!”) e merece ser cantado (“Cantai!”). Embora seja espaço de perigo, o sujeito poético incita-os a não terem medo da morte (“que a morte é divina!”) enquanto o barco desliza e se afasta num movimento de saudade (“Resvala o brigue à bolina / Como golfinho veloz. / [...] Saudosa bandeira acena / As vagas que deixa após.”).

O sujeito poético passa ao elogio dos marinheiros de diferentes nacionalidades que se lançam aos desafios das viagens marítimas por outras terras. A cada nacionalidade ele associa um referente diferente: ao Espanhol, “as cantilenas / Requebradas de langor”; ao Italiano, a cultura lírica clássica (“Relembra os versos de Tasso”) ou o mito de Romeu e Julieta (“Canta Veneza dormente/ - Terra de amor e traição”); ao Inglês, o espaço insular e o conquistador Nelson; ao Grego, a cultura clássica através da figura de Ulisses e do poeta Homero (“Do mar que Ulisses cortou, [...] Vão cantando em noite clara / Versos que Homero gemeu...”). Os únicos marinheiros que não têm qualquer referente são os Franceses, aludindo-se de forma generalizada a um passado glorioso (“Canta os louros do passado / E os loureiros do porvir!”).

Termina a última estrofe desta secção com três versos que englobam todos esses marinheiros (“Nautas de todas as plagas”) num conjunto que aprecia a viagem e que sabe achar nela uma certa melodia celeste (“Vós sabeis achar nas vagas / As melodias do céu!...”)

A terceira secção, a mais breve (uma única sextilha), dá-nos uma visão panorâmica do que acontece dentro do navio. Há um sentimento de horror e de indignação:

“Que quadro de amarguras!

É canto funeral!... Que tétricas figuras!...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!”

expresso numa linguagem emotiva que as sucessivas exclamações bem acentuam. Vários termos contribuem para se poder constituir um campo semântico do terrível: “amarguras”, “funeral”, “tétricas”, “infame e vil”, “Que horror!” Em contraposição ao descrito anteriormente, o sujeito poético, chocado com a realidade que observa de um plano superior (“Desce do espaço, ó águia do oceano! / [...] não pode olhar humano / Como o teu mergulhar no brigue voador!”), agora já não idealizada, exprime a sua revolta e repudia o que vê.

Na quarta secção composta por seis sextilhas, descrevem-se os horrores que acontecem no navio. As referências literárias por analogia acontecem logo no primeiro verso desta secção: “Era um sonho dantesco...”: o navio é a encarnação do Inferno de Dante, mas onde vão parar não mortos, mas vivos (poderíamos falar de mortos-vivos). A cor vermelha remete para o “sangue”, consequência de violentos castigos (“Tinir de ferros... Estalar de açoite...”) sobre uma mancha negra que se confunde com a noite (“Legiões de homens negros como a noite”) e que causa horror mesmo que numa actividade lúdica (“horrendos a dançar”).

A emoção aumenta na estrofe seguinte quando o sujeito poético se detém no elemento feminino que amamenta os seus filhos não com leite, mas com sangue (“cujas bocas pretas / Rega o sangue das mães”). Outras mulheres mais jovens (“Outras moças, mas nuas e espantadas”) aí permanecem no meio de cadáveres (“No turbilhão dos espectros arrastadas”), a quem nada vale o sofrimento (“Em ânsia e mágoa vãs!”).

Paradoxais são as imagens da estrofe seguinte: não se houve pranto, mas uma “orquestra irônica, estridente”, emergindo da dança macabra um ser louco, símbolo do Mal (“E da ronda fantástica a serpente / Faz doudas espirais”). A expressão de sofrimento (“Ouvem-se gritos...”) incita ao castigo e não à piedade (“o chicote estala / E voam mais e mais...”).

Os escravos são uma cadeia de agrilhoados (“Presos nos elos de uma só cadeia”) que, paradoxalmente (“E chora e dança ali!” – atente-se no polissíndeto), estão unidos por diferentes sinais de loucura: “Um de raiva delira, outro enlouquece, / Outro, que martírios embrutece, / Cantando, geme e ri!”. Deste grupo destaca-se o capitão que se desdobra em carrasco: “o capitão manda a manobra, / [...] «Vibrai rijo o chicote, marinheiros! / Fazei-os mais dançar!...”

Repetem-se os três primeiros versos da terceira estrofe na última sextilha e a imagem de Inferno surge como um pesadelo em que já não são corpos, mas “sombras” que se anunciam. Num tumulto de ruídos (“Gritos, ais, maldições, preces ressoam!”) sobressai Satanás como se Deus estivesse surdo às preces, esse Deus a quem o sujeito poético recorre ainda na secção seguinte.

[...]


[1] Não o transcrevemos por ser muito longo, mas indicamos um site onde pode ser lido: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/CastroAlves/navionegreiro.ht

[2] Notem-se as múltiplas exclamações e as interjeições.

[3] “...Romanticism, the first literary movement identified with a politically independent Brazil, should have France as its reference point.” (Braga, 1986: 122).

[4] Os paralelos que se podem instituir entre os dois poemas são de vária ordem: primeiro, o mesmo cenário, o mar, e a narração de uma cena de vida no alto mar, depois, os mesmos actores, os marinheiros. Há a mesma identificação entre o poeta e o albatroz, existindo em ambos os poemas a superioridade espacial e espiritual do poeta relativamente aos homens, associada a um domínio aéreo e celeste.

[5] Na Bíblia, Léviathan é um monstro que se deve manter adormecido. Vivendo no mar, ele aí permanece se não for acordado. Capaz de devorar o sol, Léviathan é aquele que, por extensão, devora o divino e que assim permite que o maléfico se imponha (Chevalier & Gheerbrant, 1982: 566-567).

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Details

Title
Análise do poema “O Navio Negreiro”, de Castro Alves
College
University of Lisbon  (Faculté de Lettres de l'Université de Lisbonne)
Grade
"-"
Author
Year
2010
Pages
10
Catalog Number
V173385
ISBN (eBook)
9783640942398
ISBN (Book)
9783640942367
File size
604 KB
Language
Portugues
Tags
Littérature de voyages;, altérité;, esclavage
Quote paper
Ana Fernandes (Author), 2010, Análise do poema “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/173385

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