A Alemanha e as causas da Primeira Guerra Mundial: Foi ela a única responsável?


Essay, 2004
8 Pages

Excerpt

A Alemanha e as causas da Primeira Guerra Mundial: Foi ela a única responsável?

Até a conclusão do processo de Unificação Alemã em 1871, os diversos Estados alemães espalhados pela Europa Central ocupavam uma posição relativamente marginal nos assuntos políticos europeus. Com a notável exceção da Prússia, que desempenhava um papel significante no continente já em fins do século 18, os Estados alemães permaneceram nas margens do jogo político europeu até a segunda metade do século 19. A Prússia conquistara o status de grande potência após derrotar o Império Habsburgo e, em 1815, apresentava-se no Congresso de Viena como um dos Quatro Grandes, ao lado da Áustria, Grã-Bretanha e Rússia – A França retornaria à elite europeia alguns anos mais tarde. Na mesma época, o nacionalismo alemão começava a ganhar força, dando origem a diversos movimentos pela Unificação alemã. Contudo, tal unificação se tornaria uma possibilidade real apenas após a Guerra Austro-Prussiana de 1866, quando a derrotada Áustria foi permanentemente excluída dos assuntos alemães e deixou o caminho livre para a Prússia levar adiante o processo de unificação sob sua liderança.

Em 1870, tem início o conflito entre a Prússia e o Segundo Império Francês de Napoleão III, do qual o primeiro sai vitorioso no ano seguinte, completando, assim, a Unificação Alemã. Desse modo, nasce o Império Alemão (II Reich), já como potência hegemônica no continente, enquanto a Grã-Bretanha mantém o domínio dos mares e condição de maior potência imperial. Apesar de a Grã-Bretanha ter mantido sua posição na arquitetura de poder europeia, os britânicos viam a ascensão alemã com bastante preocupação, uma vez que ela ameaçava derrubar o equilíbrio de poder estabelecido em 1815. Desde o Congresso de Viena a peça chave da estratégia britânica na Europa havia sido a prevenção do surgimento de uma potência dominante no continente[1], e a ascensão

da Alemanha como claro hegemon continental colocava em xeque o sistema defendido por Londres. A quebra do equilíbrio de poder, por seu turno, deu origem a um período de desconfiança generalizada que terminou por levar a uma corrida armamentista entre as grandes potências europeias. Assim, as últimas décadas do século 19 na Europa foram marcadas por um clima de desconfiança e intensa militarização, embora a hábil diplomacia de Bismarck lograsse evitar que o pior acontecesse.

A situação mundial no início do século 20 tinha como principal traço o avanço do imperialismo. Os Estados Unidos expandiam pelo Caribe e Pacífico, controlando Cuba e as Filipinas, respectivamente; o Japão anexara Taiwan (Formosa) em 1895 e cada vez mais aumentava sua presença na península coreana; a Ásia e a África encontravam-se em vias de dominação pelas potências europeias. No caso da África, é notável o fato de que apenas a Etiópia e a Libéria continuavam independentes no início do século[2]. Até certo ponto, o crescimento da rivalidade anglo-germânica a partir da década de 1880 deveu-se ao aumento das pretensões hegemônicas da Alemanha. Se os britânicos já tinham motivos para se preocupar com a unificação dos Estados alemães, uma Alemanha unificada com ambições expansionistas agravava a questão ainda mais, sobretudo porque, no campo econômico, ela já começava a superar a grande potência marítima[3].

Mas se uma guerra generalizada parecia inevitável após a Unificação Alemã, ela fora evitada graças em grande parte ao eficaz estadista prussiano Otto Von Bismarck. O chanceler habilidosamente perseguiu uma política exterior que obteve êxito em seu objetivo de evitar uma guerra europeia: fundou a Liga dos Três Imperadores juntamente com a Áustria e a Rússia, já em 1872; Assinou o Tratado de Resseguro com a Rússia, em 1887; formou uma aliança defensiva com o Império Austríaco em 1889, à qual aderiu a Itália em 1892. Tais medidas foram tomadas ao mesmo tempo em que se evitou alienar a Grã-Bretanha ao defender continuamente a manutenção do status quo, o que, na prática, significava que a Alemanha não desafiaria a posição britânica na Europa e no mundo. Simultaneamente, Bismarck se opôs a qualquer envolvimento alemão nos Bálcãs, onde o crescente nacionalismo eslavo, sobrepostos interesses das grandes potências e desintegração do Império Otomano faziam da região o ‘barril de pólvora’ da

[...]


[1] Harold Nicholson , The Congress of Vienna: a study in Allied unity: 1812 – 1822 (London: Methuen, 1961), pp. 57-59

[2] Barbara Bush, Imperialism, race and resistance: Africa and Britain, 1919 – 1945 (London: Routledge, 1999), pp. 257

[3] Paul Kennedy, The rise and fall of the great powers: economic change and military conflict from 1500 to 2000 (London: Fontana, 1989), pp. 258-59

Excerpt out of 8 pages

Details

Title
A Alemanha e as causas da Primeira Guerra Mundial: Foi ela a única responsável?
Author
Year
2004
Pages
8
Catalog Number
V203252
ISBN (eBook)
9783656294764
File size
485 KB
Language
Portugues
Tags
Alemanha, Primeira Guerra Mundial
Quote paper
William Fujii (Author), 2004, A Alemanha e as causas da Primeira Guerra Mundial: Foi ela a única responsável?, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/203252

Comments

  • No comments yet.
Read the ebook
Title: A Alemanha e as causas da Primeira Guerra Mundial: Foi ela a única responsável?


Upload papers

Your term paper / thesis:

- Publication as eBook and book
- High royalties for the sales
- Completely free - with ISBN
- It only takes five minutes
- Every paper finds readers

Publish now - it's free