Fenômenos do falar carioca e sua estratificação social


Term Paper (Advanced seminar), 2004
57 Pages, Grade: 1

Excerpt

Conteúdo

1. Introdução
1.1 Posicionamento do falar Carioca no conjunto dos falares brasileiros
1.2 O prestígio do falar carioca
1.3 Situação sócio-geográfica do Rio de Janeiro

2. Situação da língua culta vs. a língua não-padrão no Rio de Janeiro
2.1 A língua como instrumento de marginalização
2.2 Empréstimos e influências intervariacionais

3. Projetos de sociolingüística
3.1 O surgimento da sociolingüística laboviana no Brasil
3.2 O Linguajar Carioca de Antenor Nascentes
3.2.1 Fenômenos fonéticos
3.2.2 Fenômenos morfossintáticos
3.2.3 Análise do glossário
3.3 Projeto Norma Lingüística Urbana Culta - (NURC-RJ)
3.3.1 Os alvos do projeto NURC
3.3.2 Resultados do Projeto NURC
3.4 Projeto Censo
3.4.1 Objetivos do projeto Censo:
3.4.2 Resultados do Censo

4. Análise de uma amostra de léxicos empregados no Rio de Janeiro

5. Conclusão

Bibliografia

Abreviaturas

Abbildung in dieser Leseprobe nicht enthalten

1 Introdução

Há algumas décadas, em muitos países, o foco de estudo dos lingüistas passou de uma descrição de fenômenos dialetais a uma analise de fenômenos sociolectais. Mudanca explicada pelo fato de a língua não só variar de uma região para outra (variação diatópica), como também de uma classe social para outra (variação diastrática), bem como dentro do genderlect (variação diafásica).

Quando registramos a fala de uma pessoa sob o ponto de vista da estratificação vertical de uma língua fazemos um trabalho sincrônico. Porém para explicar variações dentro da língua necessitamos uma visão diacrônica, assim que as duas disciplinas estão interligadas:

Sociolinguistics has mainly been concerned to describe ‘freeze-frame’ of society at a particular modern moment (which means it is synchronic). Traditionally, the disciplines of philology and etymology have been concerned with the processes of sound and word change over time, taking a diachronic approach to linguistic study.’ [1]

Trata-se de um trabalho totalmente descritivo que se orienta na língua falada e não tem o objetivo de ser prescritivo. Os sócio-linguistas vêem variações na língua não como erros e sim como uma forma de falar diferente, considerando que todas as línguas naturais são sujeitas a mudanças internas e externas.

No Brasil, onde temos grandes diferenças sociais, existem pesquisas universitárias desde os anos 70 nas grandes cidades brasileiras para descrever os efeitos por elas exercidos na linguagem. Mais adiante, no capítulo 3, apresentarei duas das pesquisas mais importantes neste sentido.

Eu me limitarei neste trabalho a descrever os fenômenos que apresenta o falar carioca em relação a outros falares, mas principalmente também em relação à sua estratificação social, portanto vertical. Inicialmente gostaria de apresentar as características topográficas e geológicas próprias da cidade do Rio de Janeiro, seguidas da análise do porquê de o falar carioca ter se tornado um falar de prestigio dentro do país.

1.1 Posicionamento do falar Carioca no conjunto dos falares brasileiros

Denominar como dialetos as diferenças regionais no Brasil é um tema controverso. Assim prefiro não falar em dialetos, mas em falares brasileiros.

O falar carioca se enquadra no sub-falar fluminense, o qual faz parte das variantes sul, que incluem o sulista e o mineiro (na divisão feita por Antenor Nascentes estas também incluem o falar baiano). O fluminense é falado no Espírito Santo, que fica ao norte do Estado do Rio de Janeiro, e na parte leste de Minas Gerais.

Quando falamos em FC nos referimos a variante lingüística falada na Cidade do Rio de Janeiro. No mapa abaixo esta zona é marcada de vermelho:[2]

Abbildung in dieser Leseprobe nicht enthalten

fig.1

A divisão dos falares é feita considerando principalmente a pronúncia das vogais protônicas abertas. Porém considerando outros rasgos, existem diferenças entre as variantes do sul e o carioca. São as seguintes as mais importantes:

- a pronúncia da vibrante, que na pronúncia carioca em distintas posições é aspirada, ao contrário do [r] apicoalveolar do sul;
- o chiamento geral (antes de consoantes e no final de sílaba) que o distingue a pronúncia carioca das demais de quase todo o resto do país. (Este fenômeno somente ocorre em Santos, em parte da costa de Santa Catarina e no Recife).

No capitulo 3 apresento alguns gráficos com fenômenos que refletem bem a posição destacada do FC entre as variantes brasileiras.

1.2 O prestígio do falar carioca

Assim como em quase todas as sociedades, existem falares que são vistos em uma determinada época como ambicionáveis, e há outros que são marginalizadas e menosprezadas. O status que um falar tem em um momento pode depender de fatores históricos, políticos e econômicos.[3]

Já em 1922, Antenor Nascentes reconhece a importância do carioca quando diz:

“a força centrípeta acarreta para o vocábulo carioca termos oriundos de todos os estados e ao contrário espalha neologismos a todo o país“.[4] E isso foi antes do tempo das novelas!

No caso do Rio de Janeiro podemos considerar os seguintes como os principais fatores que influenciaram no prestígio do Rio de Janeiro e, por conseguinte do falar carioca:

Período colonial

Na época da colônia o Rio de janeiro serviu como ponto estratégico: ‘desde o início da Colônia, o Rio que sempre foi urbano-mercantil, cumpriu um papel geopolítico essencial à América portuguesa em relação ao sul do continente (…)’[5]

O Rio servia como

- posição ideal para acessar Potosi;
- o contrabando de escravos para as minas no Peru e Bolívia é feito a partir do Rio;
- a administração da colônia do Sacramento com o tratado de Utrecht (1715) fica sob controle do Rio;
- a cunhagem de moedas foi transferida de Pernambuco para o Rio;
- auge do ‘Eldorado das Geraes’ no ciclo do ouro de Minas Gerais no século XVIII;
- no Rio de Janeiro é arrematado o quinto da extração de ouro;
- o Rio torna-se a sede do Vice-Reinado a partir de 1763 devido à importância do seu porto.

Séculos XIX e XX

‘Foi quando a lagarta colonial rompeu a crisálida e converteu-se na Paris dos trópicos de Pereira Passos e Oswaldo Cruz, no início do século XX, que o Rio, a Cidade Maravilhosa, serviu de suporte para a construção da auto-estima brasileira.[6]

- a instalação da corte portuguesa em 1808 fez com que o modo de pronunciar fosse visto como algo muito distinto;
- com a Independência no período Joanino o Rio torna-se capital do Reino em 1822;
- a pronúncia carioca foi proclamada como a oficial do teatro no 1o Congresso da Língua Nacional Cantada (1938) e no 1o Congresso Brasileiro da Língua Falada no Teatro (1958);
- a mídia, principalmente as estações de TV se instalaram na metrópole e começaram a irradiar a variante carioca para todo o país;
- nos anos 60 ocorreram o movimento da Bossa Nova e uma importante produção cinematográfica;
- possui a menor taxa de analfabetismo entre as 12 maiores capitais brasileiras e anos de escolaridade acima da média brasileira;
- o Rio sofreu um grande crescimento demográfico - a cidade que no século XIX era habitada por 300 mil pessoas, hoje é uma metrópole que alcança a marca de 12 milhões de habitantes. É um sintoma causado pelos movimentos de imigração interna no país.

Nem a transferência da capital para Brasília em 1960, nem a alta taxa de imigração, especialmente do Nordeste, provocou uma diminuição do prestigio do FC. Cunha afirma que em 1974, 41% da população do Rio era composta por imigrantes.[7] A maioria dos imigrantes logo assimilou a pronúncia carioca. Ainda assim, no ano de 1975 o Rio apresentava uma porcentagem de 85% de chiamento[8], atingindo hoje a quase totalidade entre pessoas das classes mais favorecidas.

1.3 Situação sócio-geográfica do Rio de Janeiro

Devido à sua linearidade e à ‘formação de gânglios em forma de corrente’, como o denomina Carlos Lessa, o Rio de Janeiro traz consigo problemas de planejamento urbano. Em cada região encontramos um coquetel social, convivendo habitantes de classe média ou alta ao lado de pessoas abaixo da linha da pobreza.

Pode-se dividir o Rio em três áreas segundo sua importância sociológica. Esta divisão, como a apresenta Callou, foi publicada em Padrões Sociolingüísticos[9]. São elas:

- a Zona Norte, composta pelos bairros Centro, São Cristóvão, Méier, Tijuca,
- a Zona Suburbana que inclui a Baixada Fluminense e
- a Zona Sul que inclui os bairros costeiros Leblon, Ipanema, Copacabana e os internos Botafogo, Jardim Botânico e Gávea.

Observamos que essa divisão corresponde aproximadamente à divisão geográfica provocada pelo maciço da Floresta da Tijuca:

Abbildung in dieser Leseprobe nicht enthalten

fig.2

Cada uma das zonas possui um conjunto de características próprias as quais veremos a seguir:

Zona Sul

- Centro de irradiação de inovações;
- imenso grau de cosmopolitismo;
- grande penetração de atividades comerciais;
- área de ocupação mais recente;
- extrema mobilidade populacional;
- acentuada diferenciação sócio-cultural;
- maior densidade populacional dentro da cidade do Rio;

é uma zona limitada por mar e montanhas que representam uma fronteira geográfica acentuada que separa as zonas - atualmente existe mais mobilidade devido aos túneis e linhas expressas;

- uma taxa de escolaridade alta de 11 anos;
- é uma área culturalmente híbrida: apresenta realizações lingüísticas conservadoras e inovadoras no mesmo contexto;
- apresenta a maior oscilação entre –s chiado (70%) e sibilado (30%). (Somente na área do Centro – a antiga sede da Corte Portuguesa - é de quase 100 %.()

Zona Suburbana

- caracteriza-se por zonas sem planejamento urbano;
- é uma área densamente ocupada sem grandes vazios;
- sua classe média se diferencia da mesma da Zona Sul por certos padrões estéticos e de comportamentos;
- concentra-se importante parcela do parque industrial da cidade;
- a escolarização é de 7 anos - muito menor que a da Zona Sul;
- no falar se encontram restos de rasgos rurais;
- lingüisticamente, entretanto, é uma área mais inovadora: o /r/ aspirado aqui é mais

freqüente que nas demais zonas.

Zona Norte

- caracteriza-se por ser uma área de ocupação mais antiga e tradicional;
- há pouca mobilidade populacional;
- é pouco suscetível a inovações;
- há uma menor diferenciação sócio-cultural;
- é predominantemente residencial e comercial.

Os mencionados fatores podem, de menor ou maior intensidade, influenciar o comportamento lingüístico dos falantes das distintas áreas. Só uma pesquisa que analise separadamente e considere cada um destes aspectos é capaz de chegar a conclusões sobre tais influências. Apresento mais adiante o projeto CENSO que, em parte, buscou alcançar este objetivo.

[...]


[1] Stockwell, Peter. Sociolinguistics. A resource book for students. London: Routledge, 2002, p.15.

[2] Nascentes, Antenor. O Linguajar Carioca. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953.

[3] Como contava o Prof. Ataliba Teixeira de Castilho numa palestra na Faculdade de Humboldt em Berlim em julho de 2003, a sua pronúncia caipira que alguns anos atrás ainda causava sorrisos entre seus alunos, hoje com a melhora da economía da região ganhou mais prestígio.

[4] Nascentes, Antenor. O Linguajar Carioca. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953, p. 12.

[5] Lessa, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Uma reflexão em busca de auto-estima. Rio de Janeiro: Editora Record, 2001, p.11.

[6] idem,.p. 67.

[7] Cunha, Celso. Língua Portuguêsa e Realidade Brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1981, p.67.

[8] Oliveira e Silva, Giselle Machline de e Maria Marta Pereira Scherre. Padrões Sociolingüísticos.Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, UFRJ, 1996.

[9] Oliveira e Silva, Giselle Machline de e Maria Marta Pereira Scherre. Padrões Sociolingüísticos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, UFRJ, 1996, p.55.

Excerpt out of 57 pages

Details

Title
Fenômenos do falar carioca e sua estratificação social
College
Humboldt-University of Berlin  (Romanistik)
Grade
1
Author
Year
2004
Pages
57
Catalog Number
V285338
ISBN (eBook)
9783656863038
ISBN (Book)
9783656863045
File size
1709 KB
Language
Portugues
Tags
Brasilianisches Portugiesisch
Quote paper
Beate Höhmann (Author), 2004, Fenômenos do falar carioca e sua estratificação social, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/285338

Comments

  • No comments yet.
Read the ebook
Title: Fenômenos do falar carioca e sua estratificação social


Upload papers

Your term paper / thesis:

- Publication as eBook and book
- High royalties for the sales
- Completely free - with ISBN
- It only takes five minutes
- Every paper finds readers

Publish now - it's free