Lógica como órganon no Aristotelismo Antigo

O conceito filosófico de disciplina instrumental no período entre Aristóteles e Alexandre de Afrodísia


Doctoral Thesis / Dissertation, 2014
151 Pages

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ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

1 ALEXANDRE DE AFRODÍSIA E A LÓGICA
1.1 VIDA E OBRA DE ALEXANDRE DE AFRODÍSIA: BREVE RESUMO
1.2 LÓGICA E SILOGÍSTICA
1.3 LÓGICA COMO OBRA DA FILOSOFIA
1.4 ANÚNCIO DA DISCUSSÃO

2 LÓGICA COMO PARTE DA FILOSOFIA
2.1 AUTORIA DOS ARGUMENTOS DA LÓGICA COMO PARTE DA FILOSOFIA
2.2 A FILOSOFIA, SER PARTE E SER PARTE DA FILOSOFIA
2.3 ARGUMENTOS DA LÓGICA COMO PARTE FILOSÓFICA: CHAVES INTERPRETATIVAS
2.4 ARGUMENTO DO OCUPAR-SE
2.4.1 Vers ã o end ó xica
2.4.2 Vers õ es unilaterais
2.4.3 Lado Estoico
2.5 ARGUMENTO DA UTILIZAÇÃO
2.5.1 Exclus ã o dos trechos C e D do argumento estoico
2.5.2 Avalia çã o e Lado Estoico
2.6 ARGUMENTO DA LÓGICA COMO NÃO SUBPARTE
2.7 AVALIAÇÃO GERAL DOS ARGUMENTOS ESTOICOS

3 LÓGICA COMO ÓRGANON
3.1 QUEM DIZ QUE A LÓGICA É UM ÓRGANON?
3.2 O QUE SIGNIFICA “ÓRGANON” PARA UM ARISTOTÉLICO?
3.3 ENTRE CRÍTICAS, ARGUMENTOS CONSTRUTIVOS E FALSAS ATRIBUIÇÕES
3.4 CRÍTICA AO ARGUMENTO DO OCUPAR-SE
3.5 CRÍTICA ARQUITETÔNICA AO ARGUMENTO DA UTILIZAÇÃO
3.5.1 Vers õ es mitigadas
3.6 O ÓRGANON NO CONTEXTO DAS RELAÇÕES ARQUITETÔNICAS
3.7 AVALIAÇÃO
3.8 ANEXO: DOIS ARGUMENTOS CONSTRUTIVOS PERIPATÉTICOS

4 O CLÁSSICO ARISTÓTELES
4.1 QUE SIGNIFICA OS ARKHAIOI EM ALEXANDRE
4.2 ALEXANDRE, EXEGETA DA INSTRUMENTALIDADE
4.2.1 Coment á rios a AAn I 1 e Top. I
4.2.2 Coment á rios a Top. I 11 e
4.2.3 Avalia çã o
4.3 A AUSÊNCIA DA LÓGICA COMO DISCIPLINA EM ARISTÓTELES
4.4 CIÊNCIA COMO INSTRUMENTO NA OBRA PROBLEMAS
4.5 O CASO PAIDEIA
4.5.1 Paideia como l ó gica?
4.5.2 Anal í tica como educa çã o geral
4.5.3 Educa çã o e metodologias cient í ficas
4.5.4 Metodologia cient í fica e anal í tica
4.6 AVALIAÇÃO

5 ELEMENTOS PARA UMA HISTÓRIA DA INSTRUMENTALIDADE ANTIGA
5.1 ARISTOTÉLICOS ANTERIORES A ALEXANDRE TOMAVAM A LÓGICA COMO PARTE DA FILOSOFIA?
5.2 INDÍCIOS FRACOS DA EXISTÊNCIA DA INSTRUMENTALIDADE DA LÓGICA ANTES DO SÉC. II D.C
5.2.1 Andr ô nico e o argumento da classifica çã o das obras aristot é licas
5.2.2 Andr ô nico e a quest ã o proped ê utica
5.3 INDÍCIOS FORTES DA RETIRADA DA LÓGICA DA FILOSOFIA PELOS PERIPATÉTICOS
5.4 COMPATIBILIZAÇÃO: LÓGICA COMO PARTE E INSTRUMENTO DA FILOSOFIA
5.5 ALEXANDRE E CRÍTICAS À COMPATIBILIZAÇÃO
5.6 AVALIAÇÃO

6 VALOR E USO DA LÓGICA
6.1 LÓGICA E FINALIDADE DO SER HUMANO
6.1.1 Esfor ç o Derivado
6.1.2 Estabelecimento da Fun çã o Contemplativa do Homem
6.2 UTILIDADES DA LÓGICA
6.2.1 Utilidades da dial é tica

CONSIDERAÇÕES FINAIS

BIBLIOGRAFIA

APÊNDICE A: COMENTÁRIOS NA SÉRIE C OMMENTARIA IN A RISTOTELEM G RAECA

APÊNDICE B: TRADUÇÃO DE ALEX. I N AA N 1,1 - 6,

APÊNDICE C: TRADUÇÃO DE AMÔNIO, I N AA N 8,15 - 11,

APÊNDICE D: TRADUÇÃO DE OLIMP. P ROLEG . 14,12 - 18,

AGRADECIMENTOS

Deus é quem recebe meus agradecimentos por aquilo que não posso agradecer a nenhum ser humano. Embora haja o risco de se agradeçer ao vazio, temo que falar palavras ao ar seja menos repreensível que a ingratidão*.

Agradeço aos meus pais, irmãos e família; a amigos tanto de Recife, quanto de São Paulo e Munique; em particular, agradeço a Daniel Arelli, Eduardo Rotstein, Francisco Gaspar e Marco Paes, que leram e discutiram comigo um resumo da minha tese. E a Sophie Friedl, pelo apoio.

Agredecimento aos professores Roberto Bolzani e Rodrigo Guerizoli, que na banca de qualificação fizeram ótimas críticas. Antecipo, aliás, que não pude dar conta de todas suas sugestões, porque no decorrer da pesquisa me foquei em um determinado assunto, deixando de lado outros sobre os quais eles eventualmente teceram comentários.

Agradeço ao Prof. Marco Zingano, cujo exemplo é inspirador, e ao Prof. Christof Rapp pela hospitalidade. Por fim, agradeço ao CNPq, pela bolsa durante meu tempo no Brasil, e ao DAAD e à CAPES, pelo financiamento durante a estadia na Alemanha.

Reitero, porém, que tal crença não deve ser motivo para desrespeitar ninguém ou interferir nas leis de minha sociedade.

RESUMO

TIBURTINO, H.B. L ó gica como Órganon no Aristotelismo Antigo: O conceito filosófico de disciplina instrumental no período entre Aristóteles e Alexandre de Afrodísia - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

Investigar as relações filosóficas da lógica como instrumento segundo os antigos aristotélicos, até a época de Alexandre de Afrodísia, é o objeto principal de nosso trabalho. Ora, após avaliarmos criticamente algumas interpretações recentes, é ainda mais claro que uma lógica-instrumento não se encontra em Aristóteles. Como não pôde ter sido Aristóteles o primeiro a defender essa doutrina, nossa investigação se concentrou, então, num dos contextos mais significativos em que ela aparece, a saber, em uma polêmica com os estoicos; em contraste com os que defendiam que ela não era parte mas instrumento, estoicos argumentavam que a lógica é parte da filosofia, os quais argumentos nós analisamos aqui. É verdade, porém, que essas duas teses não são completamente contraditórias entre si, na medida em que, no período entre Aristóteles e Alexandre, há sinais de uma tese compatibilista, ou seja, de que a lógica seria considerada tanto parte quanto instrumento. Seja como for, nos debruçamos sobre as críticas dos aristotélicos contra uma lógica-parte, bem como sobre eventuais argumentos positivos dos peripatéticos, deixando claro o significado de uma determinada disciplina ser instrumento, ó rganon em grego. No aristotelismo antigo, disciplina- ó rganon implicava relações com o conceito de arquitetonicidade; segundo trechos de Aristóteles, objetos e, inclusive, técnicos de determinadas disciplinas podem ser utilizados como instrumentos por outras, mais arquitetônicas em relação às primeiras; daí peripatéticos posteriores denominarem as próprias disciplinas subordinadas de instrumentos; o conceito de disciplina instrumental, então, implica que ela contribui para a finalidade de sua superior. Com isso em mente, voltando- nos especificamente à lógica, Alexandre de Afrodísia considerava claramente que a lógica contribui para a contemplação, finalidade última do homem.

Palavras-chave: Aristóteles, Ó rganon, Alexandre de Afrodísia, Lógica estoica, Partes da Filosofia.

ABSTRACT

TIBURTINO, H.B. Logic as Organon in the Ancient Aristotelianism: meaning and relations of the philosophical concept of instrumental discipline between Aristotle and Alexander of Aphrodisias - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.

Our major aim here was to research the philosophical relations of logic as tool according to the ancient Aristotelians untill Alexander of Aphrodisias. After our critical assessments of recent interpretations, it is even clearer that Aristotle had not any idea of logic as tool. Since Aristotle could not have argued for such doctrine, our research focused on one of the most significative contexts in which it appears, namely, in a debate with the Stoics; contrary to the ones who said logic is no part, but an instrument of philosophy, the Stoics themselves sustained that logic is part of philosophy and we assessed their arguments for this. It is true that these two theses are not throughout contradictory between them, in so far as, in the period between Aristotle and Alexander, there are signals of a compatibilist thesis, i.e. that the logic had been regarded as part and tool. May as it be, the Aristotelians criticized the arguments for logic as part, which we analyzed, as well as some positive arguments of the Aristotelian school; accordingly, the meaning of some discipline as an instrument (in Greek organon) was clear. That means: a discipline-organon implied relations with the concept of architectonicity; for, according to texts of Aristotle, objects and even technicians of some disciplines could be used as tools by other more architectonic disciplines; that is why later Peripateticians named the subordinate disciplines themselves tools; the concept of instrumental discipline implies that it helps to the finality of its superior. That in mind, we could see the specific case of logic which, as at least Alexader of Aphrodisias clearly regarded, helps to the contemplation, the utmost finality of man.

Keywords: Aristotle, Ó rganon, Alexander de Aphrodisias, Stoic logic, Parts of Philosophy.

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

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APRESENTAÇÃO

Nosso trabalho se propõe a estudar detidamente a tese da lógica como ó rganon no aristotelismo antigo. Seria o primeiro estudo recente dedicado exclusiva e sistematicamente a tal tese, a qual, no entanto, foi influente não só na filosofia antiga como também ao longo da história do pensamento. Detivemo-nos apenas no aristotelismo antigo, em que se originou tal tese; com isso, cremos contribuir também para qualquer estudo posterior que lide com o tema em outras épocas e em outros autores, bem como esclarecer esse conceito dentro da própria filosofia antiga.

As seis primeiras páginas do Coment á rio de Alexandre de Afrodísia ao primeiro livro dos Anal í ticos Anteriores de Arist ó teles é uma fonte segura acerca de um longo debate em que os instrumentalistas da lógica se enredaram; assim, concentramos-nos nelas, tomando-as como fio-condutor. Porém, não nos resumimos a essa fonte e também procuramos outras sempre que investigações nos impeliram a isto. Assim, nosso trabalho assumiu a seguinte forma: primeiro, buscamos entender quem foi Alexandre e que concepção de lógica está em jogo aí (cap. 1). Depois, analisamos os argumentos contra os quais os instrumentalistas se voltam (cap. 2) para, em seguida, analisar como eles próprios estabeleceram sua tese (cap. 3). É preciso atentar que nesse primeiro momento está em jogo o que significa em geral dizer que uma disciplina é ó rganon. Continuando, dado que Alexandre se baseia em última instância em Aristóteles, fomos a este filósofo em busca do que, segundo interpretações recentes, poderia dizer respeito à instrumentalidade (cap. 4). E, depois, fizemos um excurso da posição dos aristotélicos acerca da teoria da instrumentalidade lógica no período compreendido entre Aristóteles e Alexandre (cap. 5). Só então nos dedicamos ao estudo da tese de que a lógica, em particular, é um instrumento e que conjunto de relações isso implica (cap. 6)

Ao final de nosso trabalho, está a disposição uma tradução das seis páginas em questão, acrescidas de notas. A edição usada foi a de Wallies, de 1883, vol. II, parte 2 da série Commentaria in Aristotelem Graeca (doravante, CAG) e acompanhamos de perto a tradução de J. Barnes, S. Bobzien, K. Flannery e K. Ierodiakonou (ALEXANDER OF APHRODISIAS. On Aristotle ’ s Prior Analytics 1.1-7. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1991; doravante Barnes et. al.). Também traduzimos a parte correspondente em Amônio e em Olimpiodoro.

1 ALEXANDRE DE AFRODÍSIA E A LÓGICA

Como nosso objetivo é falar da lógica enquanto ó rganon entre os antigos aristotélicos, fomos à fonte mais antiga sobre isso à nossa disposição. Alexandre de Afrodísia é o autor mais antigo a falar da instrumentalidade da lógica entre os aristotélicos, pois fontes anteriores a ele, quando tiveram oportunidade, não atribuíram aos aristotélicos a ideia de lógica como órganon (ver cap. 5). Alexandre trata do tema em vários pontos de sua obra, mas as seis primeiras páginas dos Coment á rios aos Analíticos Anteriores de Arist ó teles é um dos mais ricos, pois há aí diversos argumentos diferentes, alguns dos quais não se encontram em outros autores. Pela antiquidade e pelo grau de detalhamento, decidimos tomar esse texto como nosso fio-condutor.

Mas antes de partir para o texto, é preciso conhecer um pouco mais esta obra bem como seu autor (1.1). Em seguida, começaremos a explorar o texto, avaliando o que signifca lógica (1.2) e por que aí se diz que a filosofia gera a lógica (1.3).

1.1 VIDA E OBRA DE ALEXANDRE DE AFRODÍSIA: BREVE RESUMO

Há até pouco tempo, a única informação biográfica segura sobre Alexandre de Afrodísia era seu agradecimento aos imperadores Septímio Severo e Antonino Caracalla, no início de seu tratado Sobre o destino e o que est á em nosso poder:

Era por aspiração minha, ó grandes imperadores Severo e Antonino, indo pessoalmente até vós, falar-vos e confessar agradecimento por aquelas coisas que recebi de vós várias vezes, sempre recebendo tudo que eu pedia junto com o testemunho de que eu com justiça sou merecedor de obter tais coisas (...) O livro contém a doutrina de Aristóteles acerca do destino e do que está sob nosso poder, de cuja filosofia fui indicado professor público por vosso testemunho (De Fato, 164, 3-6 e 16-20, editor: Bruns)

Além disso, recentemente, informações foram trazidas à luz numa inscrição encontrada em uma das três antigas Afrodísias, na qual se lê:

Por acordo de decreto da assembleia e do povo, Tito Aurélio Alexandre, filósofo, chefe de escola entre os antenienses [...] seu pai T. Aurélio Alexandre, filósofo [...]1

Ora, como não se pode tratar de outro Alexandre, dado que só conhecemos um que tenha nascido em uma Afrodísia e sido professor reconhecido em uma cidade, então, podemos traçar mais claramente um quadro de quem foi esse influente comentador. O cargo de professor público não pode ser outro senão o que Marco Aurélio, em 176, estabeleceu em várias cidades do império, obviamente também em Atenas. Septímio e seu filho, Caracalla, foram imperadores juntos e exclusivos entre 198 e 209, ano em que outro filho de Septímio, Geta, também ascendeu ao mesmo título. Logo, tal nomeação ocorreu em algum momento desse período, bem como a escrita da dedicatória acima. Com base nisso, o nascimento de Alexandre deve ter se dado entre 140 e 1602, na Afrodísia em Cária (localizada na atual Turquia). A família de Alexandre recebeu cidadania romana (que se deduz pelos três pré-nomes), o que implica que fazia parte de uma elite local. Além disso, sendo seu pai filósofo, o filho deve ter tido uma educação excelente. Em todo caso, Alexandre teria tido alguns professores aristotélicos de renome: Sosígenes, Hermino3 e, talvez, Aristóteles de Mitilene4.

Sua nomeação como professor de filosofia aristotélica em Atenas deve ter se dado após uma já bem sucedida carreira, o que implica que ele devia ter estabelecido grande parte da sua interpretação antes da virada do século. Por exemplo, justamente para escrever o livro Sobre o Destino é razoável supor que ele já tinha comentado o De Interpretatione de Aristóteles, cujo capítulo 9 trata do determinismo5. Porém, nada impede que, após sucessivos cursos, Alexandre tenha modificado determinadas interpretações6: Neste cargo e antes dele, Alexandre teve livre acesso às mais completas bibliotecas, bem como participou de debates filosóficos cadentes na época. Sua morte não pode ter passado da segunda metade do séc. III, deixando uma vasta obra.

Estudiosos atuais dividem sua produção em dois tipos: os comentários e as obras pessoais7. Porém, cada uma dessas são naturalmente subdivididas entre as perdidas e as conservadas, e estas últimas, por sua vez, subdivididas entre as conservadas em grego e as somente em árabe. Temos notícias de comentários às Categorias (doravante Cat.), ao De Interpretatione (DI), aos Anal í ticos Posteriores (APo) e às Refuta çõ es Sof í sticas (em latim, Sophisticis Elenchi, doravante SE), bem como ao livro II dos Anal í ticos Anteriores (AAn); temos o comentário completo aos T ó picos (em latim Topica, doravante Top.). Sabemos que ele comentou obras físicas, incluindo-se aí o Da Alma, e também a Metaf í sica; porém, não há qualquer notícia de que tenha comentado os escritos ético-políticos de Aristóteles, nem a Po é tica e a Ret ó rica 8.

Vejamos agora em que condições Alexandre escreveu os Coment á rios aos Anal í ticos Primeiros, cujo primeiro livro se conservou completo . Ele teve oportunidade de se beneficiar de toda uma tradição de comentários a Aristóteles, que começa no século I a.C., em torno da época em que Andrônico de Rodes editou as obras de Aristóteles e Teofrasto9. Não sabemos exatamente quantos pensadores comentaram os AAn; porém, pelas suas referências, Alexandre usou largamente o comentário de Hermino, e eventualmente obras de Teofrasto e Eudemo relacionadas a temas dos AAn. Pode-se acrescentar Galeno, embora não haja nenhuma referência explícita a ele, pois tanto este quanto Alexandre se assemelham num ponto digno de nota: também o médico de Pérgamo era crítico costumaz da falta de utilidade de algumas fórmulas lógicas10. Que Alexandre leu Galeno, sabe-se não só por uma vaga referência em In Top 549, 24, mas principalmente por notícias da existência de tratados afrodisienses criticando determinadas teses filosóficas galênicas11. Isso implica que, nas críticas à lógica estoica, Alexandre se inspirou em Galeno e/ou ambos se beneficiaram de uma fonte comum.

Por fim, nem sempre é possível dizer com certeza quanto é ideia original de Alexandre e quanto ele simplesmente repassa. Desse modo, a menos que se especifique algo em contrário, vamos usar seu nome sem nos compremeter em atribuir a autoria da ideia a ele.

1.2 LÓGICA E SILOGÍSTICA

Infelizmente, Alexandre não explica expressis verbis o que significa lógica, ao menos não nas suas obras restantes; e é vão recorrer a Aristóteles, já que este não usa o termo “lógica” e seus derivados para designar uma disciplina nem detinha outro conceito equivalente (ver cap. 4 abaixo). Porém, Alexandre relata um acordo (ver 2.6 abaixo) de se considerar que a lógica tem por objeto as premissas e como finalidade a geração de conclusões; isso é o mais próximo que podemos chegar de uma definição. Além disso, há a questão de se Alexandre considerava a lógica idêntica à silogística12 ou uma área maior, da qual a silogística faria parte; não temos resposta a tal questão.

Depois, fala-se o que está “sob” (hupo) a silogística, a saber, a apodítica, dialética, peirástica e sofística; “sob” refere-se a partes da silogística; é preciso chamar atenção a isso, porque há outro sentido em que uma disciplina está sob outra, a saber, possuindo uma finalidade subordinada (ver 3.6). Ora, não se deve entender que essas quatro disciplinas esgotam o campo da silogística, pois o estudo dos silogismos em geral, quero dizer, aquilo que é feito em AAn, não se encaixa em nenhuma das quatro propriamente. Alexandre as chama todas methodoi, título com o qual chamará também a lógica (In AAn 1,17); em outros momentos, esse termo ganhará um significado como método ou ciência; porém, a princípio pode significar também simplesmente matéria ou tratado; sem nos compromenter com uma concepção unívoca, usemos o termo “disciplina”. Felizmente estão preservadas as definições ou ao menos boas descrições de cada uma das quatro13. A tudo isso se junta a expressão “analítica” em In AAn 4, 30, que tomo como sendo a junção entre silogística pura e demonstrativa; de fato, no contexto, Alexandre falou apenas de silogística e apodítica.

1.3 LÓGICA COMO OBRA DA FILOSOFIA

Em seguida, Alexandre partilha da opinião de que a filosofia gera a lógica e, mais, a filosofia enquanto tal. Existe uma razão para se sentir comprometido com essa tese: comentando Metaf í sica IV 3, 1005 a 19, em que Aristóteles atribui ao filósofo a tarefa de discorrer sobre os princípios silogísticos, Alexandre vai um pouco mais além.

[Aristóteles] diz que o filósofo primeiro discorre sobre os axiomas, mas não a fim de que demonstre algum deles (afinal, os princípios das demonstrações são indemonstráveis, conforme ele fala), mas qual é sua natureza, como vêm a surgir em nós, como devem ser usados e muitas outras coisas acerca disso são tratadas no Acerca da Demonstra çã o. Pois, assim como é do filósofo o discurso sobre os axiomas, também o é o sobre a demonstração; e não acerca desta ou daquela, mas em geral o que é e como vem a ser. Pois, a demonstração não convém a um gênero único dos objetos das ciências, mas existe, para cada ciência, uma demonstração além dos assuntos próprios da ciência, e cada pessoa faz uso dela por hipótese, aprendendo porém com a filosofia como é preciso demonstrar. (Alex. In Met. 266,18-28)

Alexandre assume que o filósofo deve discorrer não só sobre os axiomas (que se entendem aqui por princípios primeiros indemonstráveis), mas também sobre a demonstração em geral, assunto próprio dos APo e do Acerca da Demonstra çã o. Seriam, aliás, dois títulos para um único tratado? Pareceria que não, já que logo em seguida Alexandre cita especificamente os APo (267,1); mas, junto com os tradutores da edição inglesa, é mais seguro supor que são a mesma obra.

Segundo a exegese de Alexandre, o filósofo é o fundador da silogística; por que cabe somente ao filósofo essa tarefa? A resposta está no caráter universalíssimo da apodítica. De fato, a apodítica tem um carater comum a todas as ciências, pois “os axiomas são princípios comuns e indemonstráveis úteis para mostrar as coisas em todas as ciências”, então eles não podem ser assunto específico de nenhuma delas. Como não são específicos, os princípios apodíticos devem pertencer à ciência mais universal. Ora, a filosofia primeira lida com o que é o gênero mais alto, a substância, e, mais, o ser em geral (266, 2-14), ou seja, ela está no mesmo nível da apodítica; então por isso a ela cabe por direito o estudo dos axiomas e da demonstração, e o mesmo raciocínio pode ser aplicado à lógica. Portanto, a filosofia tem por tarefa própria fundar a lógica.

1.4 ANÚNCIO DA DISCUSSÃO

Em 1, 7-9, Alexandre anuncia uma polêmica, na qual dois partidos, partindo da concepção de que a filosofia gera a lógica, teriam chegado a conclusões diferentes. Um partido, ao qual nos referiremos às vezes por participalista, dizia que, porque a filosofia gera a lógica, ela é parte da filosofia; o outro, que chamaremos por vezes instrumentalista, diz que daí se segue que a lógica não é parte, mas instrumento. Daí instala-se um debate cuja primeira rodada se encerra em In AAn 2, 33. Ou seja, nesse trecho, Alexandre estaria relatando discussões que se deu historicamente antes dele; não sabemos, porém, quando começou e em que medida Alexandre acrescentou ideias suas. Seja como for, há outros autores antigos que fizeram relatos da mesma discussão, a saber14:

a) Amônio In AAn 8,15 - 11,21;
b) Filop. In AAn 6,19 - 9,24;
c) Olimp. Proleg. 14,12 - 18,12;
d) Elias In AAn 134, 1 - 138, 13;
e) David In AAn (Conforme prometido em seu In Isag. 95, 8s) f) Anônimo, In AAn, Brandis (ed.), 140 a 45 - 141 a 3;
g) Anônimo, de arte logica disputatio, CAG XII 1, p. x-xii
h) Boécio, In Isag. (Frag. 32A, Hülser I)

Amônio, filho de Hermias (séc. V), e seus alunos, Olimpiodoro e Filopono, fizeram parte da hoje conhecida como Escola Neoplatônica de Alexandria. Não há dúvidas quanto à antiguidade desses escritos, porém, supõe-se que o In AAn de Amônio foi escrito por um aluno seu, pois, no título do comentário consta “a partir da fala de Amônio”, mas em todo caso busca-se relatar o que o mestre disse. O título do comentário de Filopono revela que surgiu a partir de “conversações com Amônio”; porém, como há diferenças dignas de nota, não se deve supor disso que Filopono não apresentou sua própria interpretação de algumas questões. Dado que os relatos deles apresentam diferenças com o de Alexandre, os neoplatônicos se basearam em fontes diferentes. Todavia, Lloyd duvida que eles consultaram diretamente obras dos estoicos15, os quais como veremos são os participalistas da discussão; mas, ainda que os neoplatônicos tivessem se valido de fontes indiretas, seus relatos devem ser levados em conta.

Elias e David são pouco conhecidos na história. Há uma densa discussão sobre a autoria dos Coment á rios à s Categorias16 ; apesar dos problemas de atribuição, nós vamos nos referir às obras conforme elas foram editadas, ou seja, Elias para o comentário editado por Westerink e David para o comentário armênio editado por Topchyan. Seus nomes revelam que tiveram origem cristã e supõe-se que foram alunos de Olimpiodoro17, serão considerados neoplatônicos, embora não saibamos verdadeiramente suas filiações. No que diz respeito à discussão “lógica: parte ou instrumento?”, eles não apresentam independência com relação aos naoplatônicos mais antigos e, portanto, é mais razoável aceitar que esses foram suas fontes. Olimpiodoro lhes serviu de fonte principal, pelo fato de suas notícias coincidirem em muito com a deste; mas a citação de Eutócio (com certeza, o matemático amigo de Amônio. Cf. WESTERINK, 1961, p. 129), logo no início de seus comentários, nos induz a pensar que este tenha sido uma fonte importante. Por fim, os autores anônimos (f e g acima) já representam uma certa perda dos elementos da discussão e nós só vamos estudá-los apenas esporadicamente.

Há ainda outras tantas notícias feitas por autores contemporâneos aos neoplatônicos, ou mais tardios, entre siríacos e árabes; não os analisamos em nosso trabalho, tampouco os bizantinos18. Com o tempo, a discussão se arrefece até chegar na Modernidade, em que é posta em outro contexto. Paremos por aqui e tentemos entender o que significava dizer que a lógica é um instrumento e em que isso se diferencia da lógica como parte.

É difícil entender por que os antigos se importavam tanto se a lógica era parte da filosofia; afinal, dentro ou fora da filosofia, a lógica não permaneceria a mesma? Que diferença há se a lógica faz parte da psicologia, da matemática, da filosofia ou de nenhuma delas: as fórmulas, as teorias etc. não deveriam ser as mesmas? Fica- se com a impressão que os antigos estão apenas polemizando ou se atendo a “uma mera disputa de palavras”19. Contudo, aqui concordamos com Lee20: na antiguidade, aceitar uma das duas posições significava uma grande diferença em relação à outra. Se alguém tomasse a lógica como parte da filosofia, isso implicava que estaria disposto a desenvolver algumas teorias lógicas completamente inúteis, sem aplicação ulterior, porque tudo na filosofia é digno de estudo por si mesmo. Por outro lado, teorias desse tipo seriam descartadas se uma pessoa defendesse uma lógica instrumental, preocupando-se em se ater apenas a teorias lógicas que ajudassem a responder alguma questão científica ou prática. Ainda que em alguns pontos ambas lógicas coincidissem, no momento em que o estudo começasse a ficar autocentrado, um lógico instrumental pararia. Portanto, o corpo teórico de uma lógica instrumental apresenta importantes diferenças em relação ao de uma lógica-parte da filosofia. E, no mínimo, as metas às quais obedecem são diferentes.

2 LÓGICA COMO PARTE DA FILOSOFIA

2.1 AUTORIA DOS ARGUMENTOS DA LÓGICA COMO PARTE DA FILOSOFIA

Logo após anunciar que houve uma discussão sobre se a lógica era parte ou instrumento da filosofia (In AAn 1, 7-9), Alexandre começa por “os que dizem que a lógica é parte da filosofia” (In AAn 1, 9), sem nos dar maiores informações acerca de quem seriam exatamente essas pessoas. Ora, é verdade que muitos são os autores e escolas que consideravam a lógica parte da filosofia, como p.ex. “alguns dos platônicos se tornaram dessa opinião, porque segundo Platão a lógica não é um instrumento, mas parte, inclusive a parte mais honrosa da filosofia” (Amônio In AAn 8, 22-24)21. Contudo, sejamos mais precisos: não só de quem punha a lógica na filosofia fala Alexandre, mas, além disso, de quem elaborou os argumentos a seguir e, devido a notícias tardias, sabemos que foram exclusivamente estoicos (ver SVF II 49; Hülser, I, frgs. 27-32); já os platônicos há pouco citados teriam argumentado por outra via, a saber, por textos de Platão como Fedon e Filebo (cf. Amônio, In AAn 10, 22-23). Portanto, devemos acordar que Alex. In AAn 1,9 - 2,2 trata exclusivamente de estoicos22.

Todavia, evitemos dizer “todos os estoicos”, pois, quando se revisa a história desta escola, ouvimos vozes dissonantes, que escolheram retirar a lógica da filosofia, a começar pelo fundador do estoicismo, Zenão de Cítio, que teria visitado os cursos dos cínicos (Diógenes Laécio, Vidas e Doutrinas de Fil ó sofos Ilustres, doravante DL, VII 2), os quais afastavam a lógica - bem como a física - da filosofia e, então, sob influência deles, teria considerado inútil alguns estudos dos discursos, envolvidos na enkyklios paideia 23 ; ou seja, o próprio fundador do estoicismo esteve ligado à ideia de se desprezar a lógica. É verdade que, mais tarde, Zenão teria reconsiderado esta questão e, por fim, difundido a famosa tripartição da filosofia em ética, física e lógica (DL VII 39). Seu sucessor Cleantes, por sua vez, a dividia em seis: dialetik ê, retórica, ética, política, física e teologia (DL VII 41); ainda que a lógica, no estoicismo, abarque a dialetik ê e a retórica (ibidem), não deixa de ser notável que o segundo lider da Estoa evitasse fazer uma tripartição, bem como utilizar o termo “lógica” em sua própria divisão. Mas mais dissonante ainda é a voz de seu contemporâneo, Ariston de Quios, para quem a filosofia não tinha senão a parte ética e que, desse modo, a lógica bem como a física deveriam ser descartadas (DL VII 5; Sexto Empírico Ad Mathematicos VII 12; Sêneca Ep í stolas a Lucillius 89, § 13). Assim, é importante notar que a própria inclusão da lógica na filosofia não foi unanimamente defendida pelos estoicos e, portanto, deve ser considerada estoica na medida em que muitos desta escola a defenderam, inclusive Crisipo (DL VII 39). Infelizmente, não temos como determinar quais estoicos expressamente teriam elaborado e/ou sustentado os argumentos a seguir.

2.2 A FILOSOFIA, SER PARTE E SER PARTE DA FILOSOFIA

Agora que já identificamos quem elaborou os argumentos para a lógica como parte da filosofia a serem estudados neste capítulo, vejamos exatamente o que significava essa tese. Primeiro devemos entender o que é a filosofia nesse contexto, em seguida, o que significa “parte” para, por fim, observarmos o que significa ser “parte da filosofia”.

Com a palavra “filosofia” muitas coisas diferentes podem ser significadas, porém, Alexandre e os comentadores tardios não especificam um sentido quando tratam do debate se a lógica é parte dela. Entre estudiosos recentes do estoicismo, tem havido um debate sobre o que é exatamente particionado24, evidenciando que é sensato se perguntar também aqui o que se entende por filosofia. Ora, veremos que, no decorrer da discussão (ver abaixo 2.6), a lógica bem como as partes da filosofia são caracterizadas e diferenciadas umas das outras pelo objeto e objetivo próprios, p.ex. a parte prática da filosofia lida com assuntos humanos e tem como objetivo a felicidade humana; pelo fato de se caracterizar disciplinas apenas com base nesses dois critérios, elas são entendidas como campos de estudos. A mesma interpretação deve ser transposta para a filosofia, ou seja, ainda que possua outros sentidos, filosofia é entendida aqui como uma área de estudos e, enquanto tal, é particionada.

Acordado um sentido para filosofia, vamos ao de parte. A palavra meros se contrapõe, nesse contexto, a morion e a organon; meros e morion, normalmente, possuem o mesmo significado; às vezes, porém, um autor pode escolher por traçar um contraste entre eles25. Esse é um desses casos: vamos traduzir “meros” por “parte” e “morion” por “subparte” e vejamos qual a diferença exatamente entre eles. Alexandre não a explana detalhadamente, mas a explicação de Amônio é muito esclarecedora:

Antes disso, é preciso dizer o que diferencia um instumento de partes. Ora, é instrumento o que não contribui (suntelei) para o ser de algo e que, se for retirado, o todo permanece; já uma parte contribui (suntelei) para o ser de algo e, se retirada, o todo se destrói também. Por exemplo, a faca é instrumento do sapateiro, pois a faca não é componente (sumpl ê rotik ê) da substância dele, nem, caso seja perdida, o sapateiro se desfaz também. Mas a mão é parte do homem e, retirada a mão, desfaz-se também um todo, que é o homem (holos ho anthr ô pos), pois não é mais um todo, mas mutilado e incompleto (atel ê s). A parte difere da subparte (morion) porque a parte é uma grande parte e a subparte é uma pequena parte, isto é, é parte de uma parte; por exemplo, a teórica é parte da filosofia, já uma subparte é a teológica. (Amônio In AAn 8, 26-36. Cf. Filop. In AAn 8, 21-31; Elias In AAn 135, 30s)

Entende-se por parte algo que compõe um todo e, portanto, se retirado, o todo enquanto tal desaparece; por exemplo, se retirarmos uma fatia da pizza, a pizza completa, isto é, enquanto um todo, já não existe mais. Consequentemente, uma subparte nada mais é que parte de uma parte maior; p.ex., o dedo é uma parte da mão, que por sua vez é parte do membro superior; logo, o dedo é subparte do membro superior. Um todo é constituído de meroi e moria, que se contrapõem a algo que seja externo, como um instrumento. Transpondo para um contexto científico, determinadas ciências possuem partes e subpartes que as completam; por exemplo, a geometria sem a trigonometria estaria incompleta, logo, esta faz parte daquela. Assim, de modo ilustrativo:

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É preciso apenas notar que há a seguinte flutuação de expressão: pode-se dizer sem significar uma distinção, por exemplo, que D é subparte de B, bem como D é parte de B.

Agora nos voltemos ao que significa especificamente “ser parte/subparte da filosofia”. Uma noção promissora é: ser algo estudado por si mesmo: assim pensa Barnes; Lloyd já havia dito que assim entende Alexandre26. Nessa linha, Olimpiodoro apresenta um argumento no qual a noção de “ser tomado por si” cumpre papel importante (ver seção 3.7 abaixo). Mas podemos lançar dúvidas quanto a esta definição de “parte da filosofia” porque a parte prática da filosofia não buscada por si mesma, mas visa à felicidade. Não entremos aqui em debates com os estudiosos atuais; chamemos atenção apenas para a noção de completude conforme vimos há pouco e definamos “ser parte/subparte da filosofia” como algo que completa a filosofia, pois ao menos assim havia uma tradição nesse sentido:

Mas, como há muito tempo na tragédia o coro era o único ator e, depois, a fim de que ele respirasse por um tempo, Tespis inventou um único ator, Ésquilo um segundo e Sófocles um terceiro e a tragédia foi assim completada (sunepl ê r ô sen), assim também na filosofia em tempos passados discursou acerca de um único assunto, a saber da física, então Sócrates acrescentou o segundo assunto, a ética e Platão o terceiro, a dialética e assim trouxe a filosofia à perfeição (etelesiourg ê se) (DL III 56. Tradução a partir da de Hicks)

Sexto Empírico reporta opinião semelhante e temos notícias de que o aristotélico Aristocles se teria assim expressado27. Desse modo, ainda que houvesse diferentes concepções de o que significa isso, ser parte da filosofia, rondava entre os debatedores dessa questão uma definição comum que, com toda sua obscuridade, significava isso: completar a filosofia.

Deixemos de lado a busca pela definição de ser parte/subparte da filosofia e nos voltemos à pergunta pelo critério, já que é sobre critérios que vamos falar logo em seguida. Os critérios para se considerar que x é A não precisam estar ligados à definição ou a uma característica fundamental de A; basta que x tenha algo de distintivo que nos leve necessariamente a incluir x no conjunto A; por exemplo, a definição de água pode ser H2O; porém, o critério para considerar que x seja água não tem de passar pela sua definição, pode ser algo como “líquido jorrado de uma fonte”, mesmo que haja outros lugares em que água seja encontrada. Veremos que os argumentos abaixo lançam mão de dois critérios para dizer que a lógica é interna à filosofia, o do ocupar-se e o da utilização, não sendo claro se esses critérios são causas ou sinais. E o critério para algo ser subparte (em contraste com ser parte), por outro lado, é ter o mesmo objeto e a mesma finalidade de sua respectiva parte.

Por fim, do lado estoico, é notável que se evitava usar a palavra “meros” para designar as partes da filosofia: “Essas partes, Apolodoro chama de ‘lugares’; Crisipo e Eudromo, de ‘espécies’ e os outros [pelo contexto, Zenão, Silos, Diógenes da Babilônia e Possidônio], de ‘gêneros’” (DL VII.40)28. A razão de tamanho cuidado na escolha das palavras é óbvia: os estoicos não queriam segmentar a filosofia, mas apresentá-la como una. Caso usassem a palavra “parte”, poder-se-ia dar a ideia de que são partes contíguas e, portanto, diferentes entre si. A unidade da filosofia estoica é algo que vem sendo enfatizada29. Ainda assim, estoicos tardios como Sêneca (p.ex. Ep í stolas a Lucillius, doravante Ep., 89) adotam a terminologia de pars.

2.3 ARGUMENTOS DA LÓGICA COMO PARTE FILOSÓFICA: CHAVES INTERPRETATIVAS

Antes de analisar os argumentos estoicos para concluir que a lógica é parte da filosofia, precisamos ter em mente a estrutura subjacente das notícias que vamos analisar, pois houve uma série de relações históricas até a notícia ter sido escrita. Existem vários tipos de estruturas imagináveis, mas trabalhemos aqui com duas, as quais chamaremos endóxica e unilateral.

Em primeiro lugar, houve quem defendesse uma tese B, que se contrapõe frontalmente à tese A, a respeito de um determinado assunto. Isso fez com que os defensores da tese A elaborassem argumentos específicos a fim de refutar B, os quais argumentos são voltados para os partidários de B e, nessa medida, levam em consideração outras premissas que estes últimos estariam dispostos a aceitar. Desse modo, instala-se um debate entre esses dois partidos e é esse debate que um determinado comentador tardo-antigo nos reporta. Veja-se de modo ilustrativo a estrutura chamada “endóxica”:

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Assim, por exemplo, Alexandre relata debate entre estoicos e aristotélicos quanto à questão de se a lógica é parte ou instrumento da filosofia, no qual os estoicos usam o argumento do ocupar-se; este argumento busca aceitação dos aristotélicos na medida em que parte de outras premissas que estes últimos estariam dispostos a aceitar. Muito diferente se a estrutura do comentário for unilateral:

Comentador X relata ...Argumento de Partidários de A Neste segundo caso, os partidários de A não se mostram tendo alguém em vista; eles desenvolvem seus argumentos provavelmente levando em consideração ideias próprias e visam tão somente o estabelecimento da tese A, por meio de um argumento construtivo. Se há um oponente do argumento, ele não se deixa entrever nesse tipo de estrutura e, portanto, não se deve assumir que havia.

Mas como vamos determinar se a estrutura do comentário é uma ou outra? Para classificar um comentário na primeira estrutura, procuraremos sinais daquilo que chamaremos “endoxidade”. Por “endóxico” entendo um apelo à concordância e, para determinar se houve este apelo, buscaremos por expressões do tipo “todos concordam” ou por indícios de doutrinas que não são especificas de uma escola filosófica. Na ausência deste tipo de sinais, observaremos se é possível enquadrar no esquema “unilateral”, ou seja, o argumentador parte de doutrinas muito próprias a uma escola tanto quanto muito alheias a outros modos de pensamento.

É importante notar com que estrutura lidamos porque isso influencia diretamente os prórpios argumentos: se, por exemplo, os estoicos voltam seus argumentos para os aristotélicos, então os primeiros não fazem apelo a doutrinas exclusivamente suas, buscam de preferência uma concordância mínima com os segundos para que possa haver o debate e, nessa medida, buscam usar uma terminologia que seja comum a ambos; os estoicos não precisam verdadeiramente aceitar as premissas usadas, eles podem apenas ter em vista angariar aceitação.

2.4 ARGUMENTO DO OCUPAR-SE

Alex. In AAn 1, 9-13; Boécio In Isag (in: Hülser I, Fr. 32A, l. 7-9); Olimpiodoro Proleg. 15, 23-26; Filop. In AAn 6, 25-30; Elias In AAn 135,11s; David In AAn lição 3, § 5 (p. 51 Trad. Topchyan);

Anônimo de De arte logica disputatio 5r, 1ss (CAG XII, parte 1, p. xi); Anônimo, Esc ó lios aos AAn 140 b 18 Ed. Brandis.

2.4.1 Versão endóxica

O único argumento que Alexandre apresenta como defendido pelos partidários da lógica como parte da filosofia tem ligação direta com o que foi discutido no final do nosso capítulo anterior (ver 1.3). Chamá-lo-emos de argumento do ocupar-se e ele é apresentado da seguinte forma:

Ora, os que defendem que ela é parte são levados a isso porque, assim como a filosofia se ocupa de outras coisas, que todos concordam ser partes da filosofia, fazendo obra sua a descoberta, a ordenação bem como constituição delas, exatamente do mesmo modo, ela se ocupa da disciplina em questão. Uma vez que é obra sua,... (Alex. In AAn 1, 9-13)

Até aqui os partidários da lógica como parte ainda não terminaram seu discurso: falta provar que a lógica, além de interna à filosofia, não é uma subárea, mas uma grande área, ou seja, é um meros, não um morion; para provar isso, eles usarão o argumento da lógica como não subparte (ver 2.6 abaixo). Mas, como são argumentos independentes, analisemo-los separadamente. Em primeiro lugar, o argumento acima apresenta as características da endoxidade, pois há um apelo à concordância: “todos concordam” supõe “todos os participantes do debate concordam”. Que há partes da filosofia, tanto os partidários da lógica-parte quanto os seus oponentes concordam; mas não só isso: é acordado que a filosofia se relaciona com as partes ocupando-se delas e fazendo-as obras suas. O conceito- chave é o ocupar-se (katagignomai), especificado pelo poioum ê n ê ergon, que por sua vez pode ser traduzido por fazer para si obra”, ou “dar-se a tarefa” ou mesmo “fazendo função sua”; esse ergon consiste em descobrir, ordenar e constituir uma determinada parte. Por mais que haja obscuridade em torno desses conceitos, o fato é que a lógica é produzida pela filosofia.

Note-se, por fim, que o argumento procede por meio da análise de alguns casos, para em seguida estender o resultado à lógica: “assim como..., o mesmo se aplica...”. Ou seja, é uma argumentação por semelhança. O argumento do ocupar-se (versão endóxica), então, pode ser descrito assim:

1. A filosofia tem partes A, B etc.; (concordância entre os interlocutores)
2. A filosofia se ocupa de A de modo x;
3. A filosofia se ocupa de B de modo x;
4. A filosofia se ocupa da lógica de modo x;
5. A lógica é parte (ou subparte) da filosofia

Boécio nos apresenta a mesma versão endóxica que vemos em Alexandre, porem, com alguns acréscimos30. Os acréscimos são os seguintes: 1. Estão expressas quais são as duas partes da filosofia, a teórica (speculativa) e a prática (activa); enquanto a notícia de Alexandre havia deixado em aberto quais e quantas são; e 2. Explica-se por que há um argumento específico para provar que a lógica faz parte da filosofia, mas não há para as outras partes: é porque, pelo menos entre os participantes do debate, não há dúvidas de que a filosofia tem uma parte teórica e outra prática, ao passo que há quanto a se a lógica é parte. Contudo, o argumento é o mesmo na medida em que encontramos características semelhantes às que vimos em Alexandre; pois há sinal de endoxidade: em “as partes teórica e prática indubitavelmente são consideradas partes da filosofia”, “indubitavelmente” não implica dogmaticidade, mas antes que ambos os partidos estão completamente de acordo quanto a isso. Ademais, há sinal de argumentação por semelhança nesta notícia também: assim como a filosofia pesquisa as coisas da natureza, formando assim a teórica, e as coisas humanas, formando assim a prática, por isso também a filosofia teria uma parte (ou subparte) lógica. Não há, como há em Alexandre, os conceitos de obra, constituição etc., mas o conceito de investigação faz as vezes desses. Por fim, há mais a seguinte aproximação: Boécio também não nomeia quem sustentou esse argumento. Tantas semalhanças poderiam levar à questão se Boécio, na verdade, não está apenas reescrevendo o texto de Alexandre; porém, pelo fato de haver alguns sutis acréscimos de informações, é possível que Boécio tenha diante de si, pelo menos, mais uma fonte.

Antes de passar para os outros comentadores, é digno de nota o que o neoplatônico Amônio nos revela: “os estoicos dizem que a filosofia gera a lógica e por isso esta seria parte dela, e fazem muitos argumentos semelhantes, que são inválidos” (allous de pollous toioutous legousin logous sathrous, Amônio, In AAn 9,1- 3), ou seja, há várias versões do argumento “porque a filosofia gera a lógica daí acreditam que a lógica é parte sua”. Que os argumentos, relatados por Alexandre e Boécio, são claramente uma versão desse argumento do gerar é óbvio. Por isso, embora os argumentos a seguir apresentem diferenças com relação aos que vimos em Alexandre e Boécio, daí não se deve concluir que são deturpação; devemos supor que são argumentos a ser encontrados no estoicismo.

Por considerá-lo muito fraco, o próprio Amônio o resume a apenas uma frase, conforme visto. Elias (In AAn 135,11s) apresenta o argumento de modo tão conciso quanto Amônio (“se a filosofia produz a lógica, ela é parte da filosofia”), dessa vez usando o termo apotel ô. Mesma concisão vemos em David (In AAn lição 3, § 5, p.

51 Trad. Topchyan). Nesses casos, Elias e David se encontraram influenciados pelo desprezo expresso por Amônio; assim, não é porque suas fontes são tão concisas, mas porque eles acreditam que o argumento não é digno de análise, por isso procuraram se livrar o mais rápido possível dele.

2.4.2 Versões unilaterais

Acabamos de tomar conhecimento que há várias versões do argumento do ocupar-se, mas vimos até agora somente a versão nomeada endóxica; vejamos agora algumas outras. Filopono relata o argumento da seguinte forma:

Os estoicos defendem que é parte dela com certo argumento do seguinte tipo (toiout ô i tini log ô i). Dizem que acerca daquilo de que uma técnica ou ciência se ocupa, se não puder se referir a outra técnica ou ciência como parte ou subparte sua, é parte ou subparte da primeira. Se, contudo, a filosofia se ocupa do método lógico, o qual não remonta a outra técnica ou ciência como parte ou subparte, então a lógica é parte da filosofia, ou subparte. (Filop. In AAn 6, 25- 30)

Ao contrário de como apresentaram Alexandre e Boécio, nem há apelo à concordância, nem argumentação por semelhança. Antes, de uma só vez, parte-se de uma premissa universal e se deduz as consequências; ou seja, o argumento é dedutivo e unilateral. O argumento do ocupar-se (versão unilateral) pode ser descrito assim:

1. Tudo de que uma técnica ou ciência se ocupa é parte ou subparte sua, se não remonta a outra ciência ou técnica como parte ou subparte;
2. A filosofia se ocupa da lógica;
3. A lógica não remonta a outra ciência ou técnica como parte ou subparte;
4. A lógica é parte ou subparte da filosofia.

Embora mais conciso e sem a ressalva “se não remonta etc.”, Olimpiodoro apresenta o argumento com a mesma estrutura: “A lógica é avançada (proballetai) pela filosofia; tudo o que é avançado por algo é parte daquilo que o avança. Portanto, a lógica, na medida em que foi avançada pela filosofia, é parte desta.” (Proleg. 15, 23-26). Note-se que, exatamente como Amônio anunciou, há várias versões desse argumento, cada uma com uma terminologia diferente: Olimpiodoro apresenta um com a palavra “proball ô”, ao invés de “gerar” (em Amônio), “fazer obra sua” (Alex.), ou “produzir” (Elias)31.

2.4.3 Lado Estoico

Vimos que o argumento possui duas versões, a endóxica e a unilateral. Qual a relação entre essas duas versões, não vamos nos arriscar a responder. Contudo, é importante frisar que não há razões para pensar que Alexandre reformulou o argumento estoico original para torná-lo mais fraco. Embora a versão endóxica seja inválida, na medida em que é um argumento por semelhança, ela é, pelo contrário, mais difícil de refutar do que a versão unilateral (cf. as sutilezas teóricas de sua crítica em 3.4).

Se houve então concordância entre os interlocutores (assumidamente os aristotélicos, ver 3.1) e os estoicos, a que doutrinas está-se fazendo apelo aqui? Já vimos que, no caso do aristotelismo, de fato defendia-se que a filosofia tinha por função estudar a lógica (cf. 1.3); assim, os estoicos acertaram ao pedir concordância dos aristotélicos nesse ponto. Porém, ao fazer isso, tentaram os estoicos apenas mostrar a inconsistência do pensamento aristotélico ou eles estavam comprometidos com a ideia de que a lógica era originada da filosofia? A seguinte passagem indica algo no sentido da última opção:

Os estoicos falavam que a (i) sabedoria é a ciência dos assuntos divinos e humanos e que (ii) a filosofia é o exercício [ askesis, ascese] da conveniente técnica. (iii) É conveniente uma única e mais alta excelência, e (iv) as mais gerais excelências são três: a física, a ética e a lógica. Por essa razão também (v) a filosofia é tripartite, uma parte é a física, outra, a ética e outra, a lógica. A parte física é quando investigamos sobre o Universo e aquilo que está nele, a parte ética se engaja na vida humana e a lógica, acerca do logos, também chamada de dialética. (SVF 2.35. Parênteses nossos)

Em resumo, partindo-se da definição de sabedoria (i), eles entendem o que é a filosofia, a saber, ascese (ii) em busca da excelência (aret ê) mais alta (iii) que por sua vez leva a dividir a filosofia em três partes (v), pelo fato de serem três as excelências mais gerais (iv). Ou seja, é função própria da filosofia estudar a excelência lógica na medida em que ela está relacionada de alguma forma com a sabedoria. Assim, não se pode privar de estudá-la. Porém, essa passagem apenas explica como a filosofia está necessariamente ligada à lógica, mas não, como a filosofia “gera”, “avança” ou “produz” a lógica de um ponto de vista estoico.

2.5 ARGUMENTO DA UTILIZAÇÃO

Amônio In AAn 9, 6-21; Olimpiodoro Proleg. 14,29 - 15,9; Elias In AAn 134, 14-22; David In AAn p. 49, §2 (Trad. do armênio por Topchyan), Anônimo, De arte logica disputatio 4r 26 - 4v10 (CAG XII, parte 1, p. x); Anônimo, Escólio In AAn I, 140 b 4-7, Ed. Brandis.

Ao se ler Alexandre, tem-se a impressão de que existe apenas o argumento do ocupar-se ligado ao da lógica como não subparte (a ser estudado em 2.6. Porém, que Alexandre tinha conhecimento do argumento que chamaremos “da utilização”, é óbvio pelo fato de a crítica introduzida em In AAn 2,22 - 3,33 dizer respeito a tal argumento. Isso põe a questão: por que Alexandre não relata o argumento da utilização? Nossa resposta é que o argumento não fazia parte do debate. Antes, é um argumento que os estoicos tinham para si próprios, e não utilizavam em ocasiões de debate contra os aristotélicos. Sinal disso é que ele teve apenas uma versão, a unilateral, e nessa medida não tinha um interlocutor em vista. Como Alexandre se propôs a relatar somente o debate, então preferiu omitir tal argumento.

Tomaremos, então, como fio-condutor o relato de Amônio, que remete aos estoicos(Amônio In AAn p. 9, linhas 9 “dizem”; linha 21 “como creem”); ou seja, há a intenção de fazer um relato bem como de marcar distância com relação aos estoicos; isso são sinais de que Amônio se vale de fontes. Interessante notar que os estoicos consideravam este argumento o mais forte (ibidiem 9, 4-5). Vejamos agora o relato do argumento da utilização exclusiva (Amônio In AAn página 9) dividido em trechos:

(A: linhas 6-10) Se uma técnica faz uso de algo que não é parte nem subparte de nenhuma outra técnica, este algo é certamente parte ou subparte da primeira técnica. Por exemplo, a medicina - dizem - faz uso da cirurgia e, uma vez que nenhuma outra técnica faz uso da cirurgia como parte ou subparte, a cirurgia não é instrumento da medicina.

(B: l. 10-12) A filosofia faz uso da lógica, que não <é parte ou subparte> de nenhuma outra técnica <portanto, a lógica não é instrumento>32 da filosofia, mas ou parte ou subparte. (C: l. 12-14) Mas se alguém diz que também outras técnicas fazem uso da lógica, na medida em que a medicina também faz uso de silogismos, assim como todas as outras técnicas fazem uso de silogismos, (D: l. 14-20) diremos que, por um lado, aquelas de fato fazem uso, mas não são conhecedores científicas dos métodos e se esforçam (spoudazousin) para com estas de modo não proeminente. Por exemplo, o médico se esforça (spoudazei) para com o método silogístico não de modo proeminente - nem tu dirias que ela é parte ou subparte da medicina. Mas, na medida em que lhe é útil para a demonstração dos teoremas médicos, nessa medida ele toma emprestado (paralambanei) do dialético como um instrumento. Por outro lado, o filósofo é o conhecedor em maior grau como ninguém de tal tipo de methodos.

(E: 20-21) É dessa maneira, por um lado, que [lendo men hoti ] os estoicos, conforme creem, defendem que a lógica não é um instrumento.

Em que A anuncia a regra geral, acompanhada de um exemplo; B aplica essa regra à filosofia; C é uma pergunta; D, sua resposta e E, a conclusão. Ora, a regra geral pode ser com justiça assim reescrita:

1. Toda técnica/ciência x usada por uma técnica y é parte ou subparte da técnica y se não for já parte de outra técnica w.

E o exemplo:

1.a. A cirurgia é usada pela medicina;
1.b. A cirurgia não é parte ou subparte de nenhuma outra técnica;
1.c.i. Logo, a cirurgia é parte ou subparte da medicina.

Como instrumento se contrapõe a parte/subparte, 1.c.i. pode ser reformulado assim:

1.c.ii. A cirurgia não é instrumento da medicina.

Em seguida, no trecho B, vemos o mesmo raciocínio aplicado à lógica:
2.a. A lógica é usada pela filosofia;
3. A lógica não é parte ou subparte de outra técnica ou ciência;
4.i. A lógica é parte ou subparte da filosofia.

E daí se chega à conclusão que consta em E, nada mais que 4.i reformulado:

4.ii. A lógica não é instrumento da filosofia

Acabamos de expôr a estrutura do argumento segundo Amônio (analisaremos o papel dos trechos C e D na próxima seção). Observemos como se dá o argumento nos outros comentadores. Olimpiodoro (Proleg.) apresenta o argumento do seguinte modo - também aqui divido em trechos:

(A) Tudo de que alguma técnica ou ciência faz uso, se não for <parte ou subparte>33 de outra técnica ou ciência, então é parte ou subparte <da que a usa>. Como em exemplos: a dietética é parte da medicina, de nenhum modo é parte ou subparte de outra técnica, portanto, a parte dietética é da medicina e esta somente faz uso daquela (14, 29-34)

(F) Ora, se a filosofia faz uso da lógica e nenhuma outra t é cnica ou ci ê ncia faz uso dela, então a lógica é parte ou subparte da filosofia. (15, 1-2)

(G) Mas não é subparte, portanto é parte. (15,13)

(H) Bem acrescentam ao argumento a frase “se não for de outra técnica ou ciência” por conta da astronomia. Pois, conforme revela Arato, falando da Ursa Maior, “por meio dela também os sidônios navegam muitíssimo reto”, havia o perigo de que a astronomia fosse parte da náutica, uma vez que esta faz uso daquela, se aquela já não existisse de antemão, sendo parte da filosofia, pois é remetida à parte teórica e na teórica, à matemática. (15, 3-9)

O trecho A, a não ser pela mudança do exemplo e pelo modo como está formulada, apresenta um argumento idêntico ao trecho A em Amônio: é uma regra geral acompanhada de um exemplo. O trecho F acrescenta a seguinte informação: só a filosofia usa a lógica e nada mais. G faz as vezes do argumento da lógica como não subparte; porém, Olimpiodoro não se digna a discorrer sobre ele. Por fim, H é o esclarecimento de por que os estoicos acrescentam a ressalva “se não for já <parte ou subparte> de outra técnica ou ciência”; a razão da cláusula é o caso da astronomia e da náutica.

A nova informação tradiza por F nos possibilita acrescentar à análise do argumento na página anterior a seguinte proposição:

2.b.i: nenhuma outra técnica ou ciência usa a lógica. Ou seja:

2.b.ii. Somente a filosofia usa a lógica

Elias (In AAn 134, 14-22) relata o argumento da utilização exclusiva com o mesmo exemplo da dietética e com a citação de Arato; ele não diz, porém, que só a filosofia usa a lógica, mas segue a argumentação como se isso fosse aceito; é de se notar que, com “dizem”, ele marca distância do argumento estoico (phasin nas linhas 14 e 22). David (In AAn lição 3 §2; p. 49 trad. Topchyan) não cita Arato, mas no § 3 diz que só a filosofia usa a silogística. Tudo leva a crer que Elias e David são dependentes de Olimpiodoro e de um certo Eutócio, que eles citam no começo de seus relatos; em outras palavras, eles não consultaram fontes estoicas34.

2.5.1 Exclusão dos trechos C e D do argumento estoico

Resta analisar a pergunta C e sua resposta D; aqui tentaremos mostrar que esses trechos não fazem parte do argumento original dos estoicos e que Amônio nos dá sinais disso. Para mostrá-lo, precisamos adiantar alguns assuntos. Em In AAn, antes de iniciar a redução ao absurdo do argumento da utilização, Alexandre diz que participalistas serão obrigados a aceitar que a lógica é usada por outras ciências35.

Ademais, àqueles que defendem ser isto parte da filosofia, implica (sumbainei) dizer que uma parte da filosofia é instrumento das outras ciências e técnicas, as quais fazem uso de silogismos e demonstrações para a preparação e constituição de suas próprias coisas; pois, fazem uso destes, contudo não como de partes próprias suas. (Alex. In AAn 2, 22-25)

De um ponto de vista aristotélico, é óbvio que as demais ciências e técnicas podem usar a silogística e pois, logo após te apresentar todos tipos de silogismos, Aristóteles fala “o método (hodos) é este para todos, seja acerca da filosofia, seja de qualquer técnica ou aprendizado” (AAn I 30, 46 a 3; cf. Filop. In AAn 305, 12-16). Portanto, é muito natural que um peripatético considere que a lógica é usada por outras ciências e técnicas. Assim, se um estoico dizia que só a filosofia usava a lógica, então é razoável crer que os aristotélicos fariam a simples pergunta para um estoico “ora, mas não a usam também outras técnicas a lógica?”; ou seja, pode ter partido de um peripatético a pergunta C. Em seguida, Alexandre apresenta uma argumentação, segundo a qual, se a lógica é usada por outras técnicas que não a filosofia, mesmo assim a lógica seria parte desta.

Pois, elas fazem uso destes [i.e. silogismo e demonstração], contudo não como de partes próprias suas. Afinal, não é possível que a mesma coisa seja parte de diferentes ciências; nem nenhuma daquelas tratam da constituição e descoberta dessas coisas. Portanto, seriam usantes delas como instrumentos (Alex. In AAn 2, 25-28)

1. Não é possível que a mesma coisa seja parte de diferentes ciências;
2. x usado pelas ciências/técnicas y e w,
3. Se y se der ao trabalho de consituir e descobrir x, então x é parte de y;
4. Se x for parte de y, então x é usado como instrumento de w;
5. Filosofia e outras ciências/técnicas fazem uso da lógica;
6. Filosofia se dá ao trabalho de constituir e descobrir a lógica;
7. Lógica é parte da filosofia (ver Alex. In AAn 2, 33)
8. Lógica é usada como instrumento pelas outras ciências e técnicas

Ora, essa é exatamente a resposta que encontramos no trecho D do relato de Amônio, com a única diferença de, ao invés de “se y se der ao trabalho de consituir e descobrir x”, Amônio põe “se y for conhecedora científica de x e se y se esforçar (spoudazein) em grau proeminente a x”; esses dois critérios são, no entanto, equivalentes. Ao que parece, Amônio escreveu o trecho D seguindo os passos de Alexandre.

Com base em que Alexandre e Amônio alcançaram essa resposta? Teriam eles copiado de um estoico que respondeu nesses termos a pergunta aristotélica? Amônio não atribui a resposta aos estoicos, mas a responde em nome próprio: observe-se que logo após a pergunta, Amônio muda para a primeira pessoa do plural. Alguém poderia entender que isso é apenas um recurso retórico, como se ele tomasse a posição dos estoicos; e para fortelecer essa interpretação, poderia apontar que a palavra “dialético” está num sentido não aristotélico bem como que o todo da argumentação é atribuído aos estoicos em Amônio In AAn 10, 16. Contudo, dois pontos mostram que Amônio deve estar aqui suprindo voluntariamente uma falta do argumento inicial. 1. Nós havíamos visto que Amônio sempre que possível demarca distância, fazendo uso de expressões como “eles dizem”; 2. No contexto, Amônio usa muitas vezes “nós” para denotar somente a si próprio ou a si junto com os leitores/ouvintes; exemplos em 8, 19, após anunciar que há o debate sobre se a lógica é instrumento, ele sugere “falemos as opiniões...”; em 9,36 e 10,2, para expressar as objeções à argumentação dos estoicos, “falaremos que...”; em 10,24, contra alguns platônicos, “nós mesmos dizemos...”; enfim, em todos esses casos, Amônio não usa a primeira pessoa de modo retórico. E, por fim e o que é mais decisivo, como Olimpiodoro já nos mostrou (trecho F), o argumento era pensado supondo que só a filosofia usava a lógica; e mais, segundo o trecho H, a ressalva “se não for de outra técnica ou ciência” é para dar conta do caso da astronomia em relação à náutica, como se essa fosse a única razão por que fizeram essa ressalva; ou seja, ela não foi originalmente acrescentada tendo em vista que a lógica pudesse ser usada por outras ciências.

Em resumo, D é um acréscimo ao argumento a partir da própria pena de Amônio que, ciente da crítica aristotélica, achou por bem não deixar sem respostas aqueles que pusessem a questão “não é a lógica usada por outras ciências?”, ele teria se inspirado não num estoico, mas em Alexandre, o qual por sua vez tentou comprometer os estoicos com a tese de que a lógica é parte da filosofia, mas ao mesmo tempo instrumento de outras técnicas. Alexandre teria apresentado essa resposta com base em outra resposta semelhante dos estoicos, uma resposta que tinha a ver com a náutica e a astronomia, pois sabemos, via Olimpiodoro, que os próprios estoicos tinham uma resposta de por que a astronomia pertence à filosofia e não à náutica. Desta resposta, Alexandre extraiu os pontos 1-4 vistos acima e os aplicou à lógica e à filosofia. Assim, D só pode ter sido apresentado após o argumento da utilização ter sido exposto e, portanto, não o compõe originalmente.

2.5.2 Avaliação e Lado Estoico

Ao contrário do argumento do ocupar-se, o argumento da utilização só é escrito em termos dedutivos. Todas as apresentações delem começam ou com um “toda técnica...” ou “se uma técnica...” e chegam à conclusão a partir dessa premissa universal. Não há análise de casos singulares e a medicina, a cirurgia e a dietética aparacem, antes, como meros exemplos da aplicação da regra geral. Portanto, não há argumento por semelhança, tampouco há apelo a doutrinas comuns dos estoicos e dos aristotélicos ou a alguma ideia corrente. O único possível indício de debate teria sido os trechos C e D de Amônio, mas vimos que isso é algo posterior e que, originalmente, não faz parte do argumento. Antes, o argumento da utilização é completamente unilateral.

Por partir de doutrinas próprias, é de se postular que o argumento da utilização se tenha gerado em seio estoico, no sentido que é um argumento para estoicos e, nessa medida, não faria sentido utilizá-lo num debate contra os aristotélicos. Isso seria a explicação por que Alexandre não se deu o trabalho de apresentar esse argumento. Deve-se entender que Alexandre conhecia o argumento (pois fará sua crítica, ver 3.5), mas ele havia se proposto a fazer o relato apenas do debate e não das argumentações esotéricas de cada partido.

Mas há, afinal, sinais de que essa argumentação concordaria com a doutrina dos estoicos? Existem outros momentos em que os estoicos se expressam de uma maneira congruente com o argumento há pouco relatado? A temática da utilização de uma parte da filosofia por outra é comum na filosofia estoica36. É verdade que se fala apenas de uso para o ensino; porém, essa discussão é ilustrativa de que a temática da utilização entre partes da filosofia não era alheia. Ser usado seria essencial às partes da filosofia e, para ser exato, não só a lógica era usada pelas outras partes da filosofia, como também a própria lógica usa as demais. Isso mostra que há uma verdadeira solidariedade entre as partes da filosofia no pensamento estoico e que o fato de ora uma ser usada ora outra não implica que esta seja inferior àquela: todas possuem o mesmo status. Por outro lado, o caso da astronomia e da náutica mostram que também outras ciências, externas à filosofia, podiam usar partes desta. Mais uma vez, a temática da utilização não implicava, dentro do próprio estoicismo, que a ciência externa era superior à filosofia. Podemos supor que a utilização, de um ponto de vista estoico, não tem qualquer valor axiológico que os aristotélicos buscam inserir. Porém, não é de nosso conhecimento com que razão os estoicos, num primeiro momento, interditassem que outras técnicas e ciências usassem a lógica.

2.6 ARGUMENTO DA LÓGICA COMO NÃO SUBPARTE

Alex. In AAn 1, 13 - 2, 2; Amônio In AAn 9, 22 - 34; Filop. In AAn 6,30 - 7,8; Elias In AAn 134,22 - 135,4; David In AAn lição 3, § 3 (p. 49 Trad. Topchyan); Olimpiodoro e o anônimo do Escólio in AAn (Ed. Brandis) citam este argumento mas não desenvolvem; o anônimo de De arte logica disputatio sequer cita.

Após apresentar um dos argumentos acima, ou o do ocupar-se ou da utilização, alguns relatos acrescentam um argumento, por assim dizer, subserviente. Este novo argumento visa a mostrar que a lógica não é uma subparte (morion), mas sim parte (meros) da filosofia. O fato de, em Alexandre, esse argumento vir depois do argumento do ocupar-se e, em Amônio, após o argumento da utilização, mostra que não há nenhuma relação intrísseca entre eles: uma vez concordado o interlocutor que a lógica é interna à filosofia, ou seja, a lógica não é instrumento, faz- se necessário então provar que é parte e não, subparte desta. Vejamos como isso é feito:

Uma vez que é obra sua, não é subparte de nenhuma das outras partes da filosofia, nem da teórica nem da prática, pois o objeto é diferente para cada um destas e, conforme cada um, o propósito se with the other parts of philosophy whenever this turns out to be required.” (MANSFELD, Zeno and The Unity of Philosophy, 2003, p. 121s). diferencia. Ora, porque aquelas partes diferem entre si nesses pontos, elas se contrapõem entre si; e, uma vez que o método em questão difere daquelas nos mesmos pontos, seria razoável contrapô-los todos. Pois difere daqueles pelo objeto (pois, axiomas i.e. premissas são os objetos da lógica) e pela finalidade, pelo propósito, pois o propósito dela é mostrar, a partir de postulados e concordâncias, qual conclusão é necessária por meio de tal ou qual junção das premissas, o que não é a finalidade de nenhuma daquelas. (Alex. In AAn 1,13 - 2,2)

Em linhas gerais, é preciso aceitar, em primeiro lugar, que tudo o que está dentro da filosofia ou lhe é parte ou subparte, não há outra possibilidade; e como a lógica está dentro da filosofia, em qual das duas a lógica se encaixa? Ora, se for subparte, tem de participar de uma das grandes partes da filosofia; dado que a lógica não cumpre os critérios para ser subparte de nenhuma das partes existentes da filosofia, então por exclusão ela é parte.

Ao falar do objeto da lógica, Alexandre apresenta primeiro o termo estoico para proposição, i.e. axioma (Ver FREDE, Die stoische Logik, 1984, p. 32, n.1), e em seguida o aristotélico, prothesis; isso é sinal de endoxidade, na medida em que quem formulou o argumento busca encontrar pontos em comum com seu interlocutor. Além disso, o autor do argumento analisa primeiro o caso das partes já existentes da filosofia, encontrando a razão de elas se contraporem, para em seguida estender o resultado para a lógica; por isso devemos analisá-lo assim:

1. Parte A da filosofia é contraposta à parte B da filosofia porque A difere de B pelo objeto e pela finalidade;
2. Lógica difere de A e de B pelo objeto e pela finalidade;
3. Lógica é parte da filosofia.

Boécio parece seguir a mesma estrutura argumentativa, com o detalhe de que ele nomeia quais e quantas partes da filosofia existem e quais são seus objetos37. Nomear quantas e quais são as partes da filosofia, a teórica e a prática, bem como quais são seus respectivos objetos (ou matérias) e finalidades (ou metas), é comum depois de Alexandre. Já Amônio apresenta um argumento com mais informações e com um raciocínio levemente diferente.

Dizem [os estoicos] que a matéria das três supartes da prática são as coisas humanas e a finalidade é a felicidade da vida humana, que o político se esforça por preservar (spoudazei peripoiein); por sua vez, a matéria das subpartes da teórica são as coisas divinas e a finalidade, a felicidade teórica. Mas a disciplina lógica não tem esta matéria, nem esta finalidade, pois a matéria dela são os discursos e a finalidade, o conhecimento dos métodos demonstrativos. Pois, também tudo o mais contribui para isto: para demonstrar cientificamente. Portanto, não é possível ordenar sob nenhuma das duas partes da filosofia. Pois, se a lógica trata (pragmateuetai) das coisas humanas e divinas (pois nós fazemos uso dela discorrendo sobre coisas humanas ou divinas), mas não se atem (ekhei) a apenas coisas humanas como as subpartes da prática, nem somente a coisas divinas como as subpartes da teórica. Portanto, não é subparte, mas uma terceira parte da filosofia. (Amônio In AAn 9, 22 - 34)

Enquanto nos argumentos tais como em Alexandre e Boécio se analisavam os objetos e as finaldiades das partes para em seguida estender os resultados ao caso da lógica, já em Amônio se analisam as subpartes das partes da filosofia, não as partes diretamente. Infelizmente, não é explicado em que medida as subpartes possuem a mesma matéria, nem a mesma finalidade; por exemplo, a matemática, a metafísica e a física possuem diferentes objetos de estudos, é inexato dizer que os três estudam coisas divinas; e a mesma dificuldade pode ser aplicada à finalidade. Ainda assim, para efeitos do argumento, importa que a lógica simplesmente não compartilhe da mesma matéria e da finalidade das demais partes da filosofia.

Note-se a expressão de que há exatamente três subpartes da prática. Isso poderia nos dar uma pista de quem elaborou o argumento e contra quem38, porém não levamos essa investigação adiante. O argumento, segundo relato de Amônio, fica assim:

[...]


1 Cf. CHANIOTIS, A. Epigraphic evidence for the philosopher Alexander of Aphrodisias. Bulletin of the Institute of Classical Studies, v. 47, 2004, p. 79-81. Os colchetes representam reais lacunas na pedra. Chianotis a encontrou Karcasu, em 2001, mas ela veio dos sítios arqueológicos de uma antiga Afrodísia. Flannery (Ways into the logic of Alexander of Aphrodisias. Leiden; New York; Köln: 1995. p. xix) já considerava mais provável que Alexandre tinha trabalhado em Atenas e vindo de Afrodísia em Cária.

2 Cf. SHARPLES, R. W. Implications of the new Alexander of Aphrodisias Inscription. Bulletin of the Institute of Classical Studies, v. 48, 2005, p. 50-51.

3 Cf. THILLET, P. Alexandre d'Aphrodise: Trait é du Destin, Paris: 1984, p. viii-ix. As fontes de que Sosígenes foi professor de Alexandre são Alex. In Meteor. 143, 13; Temístio In De Anima 61, 22; Filop. In AAn 126, 20; já Hermino, Simpl. In De Caelo 430, 32-33.

4 Moraux defendeu ao longo de sua vida com vários argumentos que um certo Aristóteles de Mitilene teria sido professor de Alexandre (cf. MORAUX, P. Aristoteles, der Lehrer Alexander Aphrodisias. Archiv f ü r Geschichte der Philosophie, v. 49, 1967, p. 169-82; idem. Ein neues Zeugnis über Aristoteles, den Lehrer Alexanders von Aphrodisias. Archiv f ü r Geschichte der Philosophie, v. 67, n. 3, 1985, p. 266-269; idem, Aristotelismus bei den Griechen. Berlin: 1984. t. 2, doravante Aristotelismus II, p. 399-401). Seu principal opositor foi Thillet (op.cit.,

p. xi-xxxi), na medida em que este lançou várias dúvidas.

5 “Il est, par suite, vraisemblable qu’il n’a composé ses ouvrages « personnels » qu’après fait l’inventaire de l’œuvres d’Aristote, après l’avoir commentée. Il est vrai qu’Alexandre n’a sans doute pas commenté tous les ouvrages du Stagirite. On peut accorder qu’il a donné une exégèse de tous les traités de l’ Organon (…)" (THILLET, 1984, p. lxxvi)

6 “It is supposed to represent the lectures which Alexander gave to his students, perhaps in the capacity as Professor of Aristotelian Philosophy. Lectures are given usually more than once, and the incorporation of later revisions will often leave the text disjointed and uneven. In Alexander’s commentary there are some odd transitions and some strange non sequitur s. They are no doubts to be explained by the nature of the work” (BARNES et al., p. 9). Ainda que este seja o caso, ao menos hoje, não se fala de fases do pensamento afrodisiense.

7 Ver THILLET, 1984, p. liii e lxii. GOULET, R.; AOUAD, M. Alexandros d’Aphrodisias . In: GOULET, R. (Ed.). Dictionnaire des Philosophes Antiques. Paris, 1994. t. 1, p. 128-139.

8 “L’impression qui donne cette liste, c’est que l’intérêt d’Alexandre se portait surtout sur les questions de logique, physique - qui comprend la psychologie - et de métaphysique. Il ne semble pas s’être attaché aux problèmes éthiques et politiques." (THILLET, 1984, p. lxii). Sobre comentários as Cat. e DI e notícia da existência de um In SE, ver GOULET; AOUAD, op. cit., p. 130.

9 Cf. GOTTSCHALK, H.B. Aristotelian philosophy in the Roman world from the time of Cicero to the end of the second century AD. In: Aufstieg und Niedergang der Romischen Welt: Teil 2. Berlin: Walter de Gruyter, 1987. v. 36.2. p. 1097-1121. Ver uma lista dos comentários aos AAn até os árabes em RESCHER, N. Al-farabi ’ s Short Commentary on Aristotle ’ s Prior Analytics. 1963. p. 24-33

10 cf. BARNES, J. Galen and the utility of logic. In: KOLLESCH, J.; NICKEL, D. Galen und das hellenistische Erbe. Stuttgart: 1993. p. 33-51

11 Os títulos desses tratados foram conservados em árabe, como a Refuta çã o da cr í tica de Galeno contra a tese de Arist ó teles que todo o m ó vel n ã o pode se mover a n ã o ser por um motor e Refuta çã o da tese de Galeno sobre o poss í vel (cf. GOULET; AOUAD, 1994, p. 136). Galeno reporta que um Alexandre de Damasco, professor de filosofia aristotélica em Atenas, teria visitado seus cursos de dissecação em Roma (THILLET, 1984, p. xxxvii). Num relato árabe da história de Galeno em Roma, nomeia-se o professor de filosofia aristotélica assim: “Alexandre de Afrodísia de Damasco” (ibidem, p. xxxiv). Isso é claramente um erro, porque antes de tudo um grego não portava nome de duas cidades. Segundo Thillet (ibidem, p. xli), o próprio Galeno, mais tarde revisando seus escritos e tendo conhecimento de que um certo Alexandre estaria ensinando naquele momento em Atenas, pensou que era o mesmo Alexandre de Damasco que assitiu suas aulas e então acrescentou a nota sobre este ser professor de aristotelismo. Mas concordo com a crítica a Thillet por Sharples (2005, p. 50, n.), segundo o qual “it is far simpler to suppose that the reference is part of the original text of the work composed in the 170’s, and the Alexander of Damascus was the first holder of the post later held by Alexander of Aphrodisias”. Assim, o escritor árabe, não sabendo quem era o pouco conhecido Alexandre de Damasco, fez um acréscimo ao original, acreditando que se tratava do mais famoso comentador com esse pré-nome.

12 “Ora, per Alessandro la « sillogistica » è la disciplina che si occupa delle inferenze in generale. (...) È quindi evidente che per Alessandro la « logica » in senso proprio è la sillogistica, che Aristotele espone negli analitici Primi. (…)” (GILI, L. La sillogistica di Alessandro di Afrodisia. Zürich; New York:, 2011. p. 66). Creio, porém, que não é evidente que lógica seja igual à silogística. Infelizmente o te kai logo em 1,3 não dirime a questão. Segundo os tradutores anglófonos, este seria epexegético (“or”); contudo, alguém poderia também ler como aditivo, interpretando que são duas coisas e que a silogística é uma subárea da lógica.

13 Conforme indicação de Barnes et al., respectivamente In Top. 2, 20-23, In Top. 2, 23-25, In Top. 22, 10-14 e In Top. 2, 25s. Descrições dos silogismos apodíticos, dialéticos e sofísticos foram dados pelo próprio Aristóteles (Top. I 1, 125 a 27 - b 4 ), bem como uma certa distinção entre dialética e peirástica (SE 2, 165 b 4-7), ainda que ambas não sejam excludentes (Met. IV 2, 1004 a 25 cf. Alex. In Met. 260, 4-5)

14 Cf. WESTERINK, L. G. Elias on the Prior Analytics. Mnemosyne, v. 14, n. 2, p. 132, 1961. Falta em sua lista porém a de David, que foi traduzida recentemente do (TOPCHYAN, Aram (Estabelecimento do texto, tradução, introdução e notas). David the Invencible, Commentary on Aristotle ’ s Prior Analytics. Leiden; Boston: Brill, 2010. Lição III-IV, p. 57-59). Aqui é recomendável a monografia de Hein (Definition und Einteilung der Philosophie. Frankfurt am Main; Bern; New York: 1985, p. 153-162), em que se faz um preciso resumo da discussão até os autores árabes.

15 “What must not continue to escape notice is a misunderstanding of the thesis that logic is a part of philosophy. This thesis is generally recognized, as it was by the Alexandrian commentators, to be something that the Stoics had said; and modern students of ancient philosophy infer that the commentators were objecting to the Stoic conception of dialectic and its relation to other branches of philosophy. No doubt this is how the debate had started centuries before: but study of the arguments will show that they contribute nothing to it, and one wonders whether the later commentators had any idea what the Stoics meant by ‘part’ of philosophy. They hadn't because they didn't know what Stoic ‘dialectic’ was but took it to mean formal logic. Even Alexander had taken ‘part’ for no more than the vague negation of ‘instrument’ (cf. In Analytica priora, 3. 4̄6), and the Alexandrians did the same.” (LLOYD, A.C. The Anatomy of Neoplatonism. Oxford: 1990, p. 18) Lloyd cita Simplício In Cat. 334,2-3, em que este comentador reclama de não ter tido acesso à “doutrina estoica e maioria de suas obras”. Na questão do sentido de “parte”, assumindo porém uma posição diferente, nós vamos assumir que há uma continuidade com a tradição (2.2).

16 Cf. GOULET, R. Élias. In:______. (Ed.). Dictionnaire des Philosophes Antiques. Paris: CNRS Editions, 2000. t. 3, p. 60-65. Ver também TOPCHYAN, 2010, p. 9-17

17 Cf. GOULET, op.cit., p. 65-66 e WESTERINK, 1961, p. 128. TOPCHYAN, 2010, p. 16-17.

18 Digno de nota é apenas a notícia de João de Itália (cf. FORTENBAUGH, W. W. (Ed.) Theophrastus of Eresus: Source of his life, writings, thought and influence, parte I, p. 135 e 7), autor do séc. XI, que sugere a possibilidade de a discussão já haver em Teofrasto, embora seja improvável (cf. HUBY, P. (Com.). Theophrastus of Eresus. With contributions on the Arabic material by Dimitri Gutas. Leiden; Boston: 2007. v. II, p. 30-32).

19 “It was a question much debated in antiquitity whether logic should be accounted a branch of philosophy, as the Stoics said, or merely a preliminary to philosophical studies, as the Peripatetics maintained. But the dispute was a little more than a quarrel about words. Both sides agreed that logic should come first in the education of a philosopher; and if the Stoics, unlike Aristotle, called it part of philosophy, that was merely because they came later and were self-conscious in the presentation of their doctrines as a system.” (KNEALE, W.; KNEALE, M. The Development of Logic. Oxford: 1962. p. 737)

20 Cf. LEE, Tae-Soo. Die griechische Tradition der aristotelischen Syllogistik in der Sp ä tantike. Göttingen: 1984. p. 49-52. É seguido por J. Barnes (1993, p. 33): “The ancient debate over the status of logic - [ organon ] or [ meros ] - was not the sterile word-chopping it is sometimes taken to be. Rather, the issue defines and determines a particular attitude to logical study” e Lloyd, 1990, p 18-19. Quando citarmos uma fonte secundária e as palavras gregas transliteradas estiverem entre colchetes, significa que, no original, estava escrito com caracteres gregos. Sem colchetes, significa que o próprio autor as transliterou.

21 Ver também “alguns dos platônicos falavam que segundo Platão a lógica é uma parte, a mais honrada, da filosofia” (Amônio In AAn 10,20-21). Muitas fontes noticiam que os platônicos adotaram esta ideia: "Les manuels platoniciens de l’époque impériale, probablement sous la lointaine influence d’Antiochus d’Ascalon, qui recherchait une synthèse entre aristotélisme, platonisme et stoïcisme, restent fidèles à l’esprit du stoïcisme, lorsqu’ils reconnaissent dans la structure trinitaire de la philosophie le fondament de son caractère systématique. On trouve ce thème chez Diogène Laërce [III 56], Apulée [De Platone I, 3, 186], Atticus [apud Eusébio Praep. Ev. 11, 2, 1] et Augustin [Contra Academ. 3, 17, 37 ; De civ. Dei 8, 4s]” (P. HADOT, Les divisions des parties de la philosophie dans l‘Antiquité. Museum Helveticum, v. 36, fasc. 4, p. 211. Os colchetes substituem notas no texto original) Dentro da "structure trinitaire" citada, está a lógica. Sobre o platônico Albino : "Die Bemühungen des Philosophen, berichtet Albinos, scheinen laut Plato aus drei Tätigkeiten zu bestehen: Betrachtung und Erkentnis des Seienden, Ausführung von schönen Taten und Untersuchung des Logos. Diese drei Teile der Philosophie heißen [ theoretike ], [ praktike ] und [ dialetike ]“ (MORAUX, Aristotelismus II, p. 449). Porém, a inclusão da lógica na filosofia foi uma ideia bastante difundida no helenismo e na Antiguidade Tardia (ver Barnes et al., p. 41, n. 4). Sobre o uso de colchetes em “[ theoretike ]” e semelhantes, ver nota anterior.

22 Na seção 5.6, abaixo, veremos se, de Alex. In AAn 2,33 em diante, é possível que Alexandre tenha outros oponentes em mente, então, valerá a ressalva "Alexander's opponents need not have been exclusively Stoics.” (BARNES et al, loc. cit.)

23 „Die Kyniker lehnten die Logik und die Physik sowie die [ egkuklios paideia ] bzw. die artes liberales ab (Diogenes Laertios VI 103). Während seiner Studienjahre bei Krates schrieb Zenon v. Kition seinen ‚Staat‘ (Diog. L. VII 4) und lehnte darin ebenfalls die enzyklischen Fächer ab (ebd. 32: Nr. 417), zu denen er dabei vermutlich auch die Rhetorik und die Dialektik zählte. Später revidierte Zenon sein Urteil, - offenbar unter dem Einfluß der Xenokratischen Akademie und der Dialektischen Schule; er erkannte, wie es scheint, die Allgeminbildung an (vgl. Nr. 417) und rechnete jedenfalls die Logik mit ihren beiden Teilgebieten Dialektik und Thetorik zur Philosophie“ (HÜLSER, I, p. lxxx-lxxxi).

24 Cf. IERODIAKONOU, K. The Stoic Division of Philosophy. Phronesis, v. 38, 1993, p. 57-74. Ver também MANSFELD, J. Zeno on the Unity of Philosophy. Phronesis, v. 48, n. 2, 2003, 128s.

25 Cf. BARNES, J. Bits and Pieces. In: idem; MIGNUCCI, M. Matter and Metaphysics. Naples: 1988. Como exemplos em que meros e morion têm o mesmo significado Barnes remete a Aristóteles Met. V 25, HA 486 a 10- 13 e Alex . In AAn 15, 22 e 16, 7. Como exemplos de alguma diferença, aponta para Aristóteles Met. 1023 b 17- 19; HA 486 a 12-13 e Alex. In AAn 1,14; 2,5; 3,7; 3,32 e 415, 1-6

26 “Yet logic is not, as some hold, a ‘part’ or [ meros ] of philosophy. That is to say, it is not a subject which philosophers should study in its own right and for its own sake” (BARNES, Galen and the utility of logic, 1993, p. 33) “How did Alexander understand logic as part of philosophy? In view of his negative definition of ‘part’ it could only be as a logic without use; which he quite reasonably ̅ and here at least as a good Aristotelian ̅ took as one studied for its own sake. And to be accurate, what was debated was rather alternative ways of studying logic than alternative logics.”(LLOYD, The Anatomy of Neoplatonism, 1990, p. 19). Lloyd põe a questão de que nem Alexandre nem os neoplatônicos sabiam o que significava “parte” para o estoicismo; não é nosso objetivo buscar refutar essa tese; mas pela nossa análise, há sim semelhança entre o que a tradição propaga e o que esse comentadores relatam. E, em todo caso, como veremos, a maioria dos argumentos são feitos num contexto de discussão e, portanto, os próprios estoicos poderiam ter feitos concessões quanto ao sentido que parte deve ter aqui. Ver também LEE, 1984, p. 46.

27 “Well, these people seem to have been deficient [ellipôs] in their approach; by comparison, the approach of those who say that one part of philosophy is physics, another ethics, and another logic seems to have been more complete [ entelesteron ]. Of this group Plato is in effect the founder, since he engaged in discussion on many matters in physics, many in ethics, and not a few in logic.” (Sexto Empírico Ad Mathematicos VII 16. Trad. de Bett). Sobre Aristocles: "Das wörtliche Exzerpt über Platon aus Aristokles‘ siebentem Buch [peri philosophias] fängt mit der thesenartigen Behauptung an, daß Platon echt ([gnesios]) und volständig ([teleios]) philosophiert habe. Dies kann nur bedeuten, daß Platon sich nicht mit Scheinproblemen beschäfigte, sondern wahren, zentralen Fragen der Philosophie erkannt hatte, und andererseits sich nicht auf das eine oder andere Teilgebiet beschränkte, sondern die Gesamtheit der philosophischen Disziplinen erforschte. Als Beweis für diese These weist Aristokles zuerst darauf hin, daß Platon Vorgänger unbefriedigende Auffassungen von der Philosophie vertraten oder sich nur Teildisziplinen widmeten, und hebt dann hervor, wie Platon die drei Hauptteile der Philosophie voneinander abhob, ohne jedoch ihre grundsätzliche Einheitlichkeit aus dem Auge zu verlieren. Daß die drei Teile der Philosophie, die vorher unabhangig voneinander existierten, von Platon als erstem zu einem harmonischen Ganzen vereinigt wurden und daß Platon eben deswegen als der „Vollender“ der Philosophie anzusehen ist, wird auch in späterer Zeit mehrmals behauptet." (Moraux, Aristotelismus, II, p. 127).

28 ; Para uma análise detalhada dos significados de cada termo, cf. IERODIAKONOU, K. The Stoic Division of Philosophy. Phronesis, v. 38, 1993. p. 61-68.

29 Cf. p.ex., HADOT, P. Les divisions des parties de la philosophie dans l‘Antiquité. Museum Helveticum, v. 36, fasc. 4, 1979. p. 209s. “In this On Logos the logos of philosophy is divided into three parts […]. It is, then, the task of the philosopher to understand what precisely each of these principles is, i.e. to distinguish them from each other […] but also to understand in what way they hang together, this is to say to understand in what way the logos of philosophy is one and unified.” (MANSFELD, Jaap. Zeno on the Unity of Philosophy. Phronesis, v. 48, n. 2, 2003, p. 123s)

30 His fere argumentis utuntur, dicentis philosophiam indubitante habere partes speculativam atque activam. De hoc tertia rationali, quaeritur an sit in parte ponenda. sed eam quoque partem esse philosophiae non potest dubitari. nam sicut de naturalibus ceterisque sub speculativa positis solius philosophiae vestigatio est itemquem de moralibus ac reliquis quae sub activam partem cadunt, sola philosophia perpendit, ita quoque de hac parte tractatus, id est de his quae logicae subiecta sunt, sola philosophia iudicat (Boécio In Isag in: Hülser I, Fr. 32A, l. 7-9). Em Tradução de Hülser (colchetes originais na tradução): “Denn diejenigen, die die Logik als einen Teil der Philosophie ansehen, bedienen sich etwa der folgenden Argumente, wobei sie erklären, daß die Philosophie zweifellos einen theoretischen und einen praktischen Teil habe. Bezüglich dieses drittens Gebiets, der Logik, ist die Frage, ob sie in den Rang eines Teils zu setzen ist; doch daß auch sie ein Teil der Philosophie ist, kann nicht bezweifelt werden. Denn wie es allein Sache der Philosophie ist, die Dinge der Natur und alles andere zu erforschen, was zum Gebiet der theoretischen [Philosophie] gehört, und wie ebenso, und wie ebenso allein die Philosophie die ethischen Dinge und alles übrige genau unteruscht, was unter die praktische [Philosophie] fällt, so beurteilt auch allein die Philosophie die Untersuchungen in diesem Teil, d.h. [die Untersuchungen] zu den Themen, die zur Logik gehören. Wenn also der theoretische und der praktische [Zweig der Philosophie] deshalb Teile der Philosophie sind, weil allein die Philosophie sie eingehend studiert, dann wird aus demselben Grund die Logik ein Teil der Philosophie sein, da dieser Diskussionsstoff einzig zur Philosophie gehört")

31 O anônimo de De arte logica disputatio (CAG XII, parte 1, p. xi, 5r, linha 1) e o anônimo dos escólios In AAn editados por Brandis (140 b 18), quando de relatar a premissa do argumento, resumem-no a “nenhuma técnica faz seu próprio instrumento”. Esse é um universal tão falso que não pode sequer ser atribuído aos estoicos; os dois autores claramente estão deturpando o argumento, na medida em que buscaram simplificar a premissa universal, porém, a troco de torná-la falsa.

32 O que está entre chevrons “<>” foi acréscimo do editor Wallies.

33 O que consta entre chevrons foi acrescentado pelo editor Busse. Dessa vez, porém, os acréscimos são dispensáveis, embora dispensá-los tornaria o argumento mais difícil de se compreender.

34 O anônimo de De arte logica disputatio (CAG XII, parte 1, p. x, 4r 26 - 4v10) acrescenta a informação duvidosa de que a dietética faz parte da terapêutica, que por sua vez é subparte da parte prática da filosofia (idem, x, 4v, 2-3); se for assim, porém, a medicina não seria uma técnica diferente da filosofia e a crítica de Alexandre e dos aristotélicos não surtiria efeito (ver abaixo 2.5.1). Por último, o anônimo (escólios editados por Brandis, 140 b 4-7) reúne do modo mais conciso possível este argumento com o da lógica como não subparte. Novamente, ambos os relatos não foram escritos tendo fontes estoicas.

35 Também Elias (In AAn 135, 21) parte dessa premissa quando relata o argumento dos aristotélicos, bem como David (In AAn, p. 51 e 53, § 1. Trad. de Topchyan)

36 “We happen to know that this contrast is flawed, at the very least insofar as Chrysippus is concerned. To give only one example, in another treatise, the On How to Use Logos (Peri logou khr ê re ô s) quoted by Plutarch, he argued that when studying logic one should also make use of 'the others' (t ô n all ô n),that is to say of what belongs

37 "Da die Philosophie sich in diesen drei Gebieten umtut und da es die Gegenstände sind, die die praktische und die theoretische Betrachtung unterscheiden - den letztere fragt nach der Natur der Dinge und erstere nach etischen Angelegenheiten -, steht außer Zweifel, daß die Logik von der Naturphilosophie und der Ethik durch die Eigenart ihres Stoffes unterschieden ist. Denn die Untersuchng der Logik gilt den Propositionen und den Syllogismen sowie den übrigen Gegenständen dieser Art, wofür weder der Teil angemessen einstehen kann, der nicht über Rede sondern über die dinge in der Realität nachdenkt, noch der praktische Teil, der auf die Sitten bedacht ist." (Boécio, In Isag. Hülser I fr. 32A)

38 Diz-se que Crisipo e outros estoicos dividiram a parte ética (i.e. prática) em oitos subpartes: “The ethical branch of philosophy they divide as follows : (1) the topic of impulse ; (2) the topic of things good and evil ; (3) that of the passions ; (4) that of virtue ; (5) that of the end ; (6) that of primary value and of actions ; (7) that of duties or the befitting ; and (8) of inducements to act or refrain from acting. The foregoing is the subdivision adopted by Chrysippus, Archedemus, Zeno of Tarsus, Apollodorus, Diogenes, Antipater, and Posidonius, and their disciples. Zeno of Citium and Cleanthes treated the subject somewhat less elaborately, as might be expected in an older generation. They, however, did subdivide Logic and Physics as well as Ethics.” (DL VII 1, 84. Trad. Hicks) porém Sêneca (Ep. 89, §14) divide-a em três. Ao mesmo tempo, alguns comentadores (inclusive Amônio In Cat. 5, 5-6) usarão a tripartição ética, política e administração doméstica para dividir as obras práticas de Aristóteles.

Excerpt out of 151 pages

Details

Title
Lógica como órganon no Aristotelismo Antigo
Subtitle
O conceito filosófico de disciplina instrumental no período entre Aristóteles e Alexandre de Afrodísia
College
University of Sao Paulo; Department of philosophy
Author
Year
2014
Pages
151
Catalog Number
V311776
ISBN (eBook)
9783668107120
ISBN (Book)
9783668107137
File size
1241 KB
Language
Portugues
Tags
Aristotle, Órganon, Alexander de Aphrodisias, Stoic logic, Parts of Philosophy
Quote paper
Hugo Bezerra Tiburtino (Author), 2014, Lógica como órganon no Aristotelismo Antigo, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/311776

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