Relações Públicas versus Öffentlichkeitsarbeit

Um estudo comparativo entre a atividade de Relações Públicas no Brasil e na Alemanha


Bachelor Thesis, 2003
100 Pages, Grade: 1,0

Excerpt

SUMÁRIO

LISTA DE TABELAS E FIGURAS

LISTA DE SIGLAS ABREVIATURAS

RESUMO

1. INTRODUÇÃO

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 RP´s MUNDIAIS – DE ONDE VEM A PROFISSÃO
2.2 CONTEXTO HISTÓRICO – SURGIMENTO DAS RELAÇÕES PÚBLICAS NO BRASIL
2.2.1 LEGISLAÇÃO
2.2.2 FORMAÇÃO ACADÊMICA
2.3 CONTEXTO HISTÓRICO – SURGIMENTO DAS RELAÇÕES PÚBLICAS NA ALEMANHA
2.3.1 LEGISLAÇÃO
2.3.2 FORMAÇÃO ACADÊMICA
2.3.3 PROFISSIONAL DE HOJE E ÁREAS DE ATUAÇÃO

3 RELAÇÕES PÚBLICAS VERSUS ÖFFENTLICHKEITSARBEIT – ANÁLISE DO CONTEXTO HISTÓRICO BRASIL E ALEMANHA – SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS
3.1 DITADURA E CENSURA VERSUS DEMOCRACIA
3.2 LEGISLAÇÃO OU NÃO LEGISLAÇÃO
3.3 FORMAÇÃO ACADÊMICA

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

ANEXO A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM

ANEXO B LEGISLAÇÃO DE RELAÇÕES PÚBLICAS NO BRASIL

ANEXO C CÓDIGO DE ATENAS

ANEXO D DIRETRIZES DA ASSOCIAÇÃO ALEMÃ DE RELAÇÕES PÚBLICAS (DPRG)

REFERÊNCIAS

LISTA DE FIGURAS E TABELAS

TABELA 1 – Fases de desenvolvimento das Relações Públicas

TABELA 2 – Trajetória histórica das Relações Públicas na Alemanha

FIGURA 1 – Comparação histórica da trajetória das Relações Públicas no Brasil e Alemanha, no período de 1815 – 1894

FIGURA 2 - Comparação histórica da trajetória das Relações Públicas no Brasil e Alemanha, no período de 1899 – 1933

FIGURA 3 – Comparação histórica da trajetória das Relações Públicas no Brasil e Alemanha, no período 1933 – 1958

FIGURA 4 – Comparação histórica da trajetória das Relações Públicas no Brasil e Alemanha, no período de 1960 – 1990

FIGURA 5 - Comparação histórica da trajetória das Relações Públicas no Brasil e Alemanha, no período de 1990 – até hoje

LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

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RESUMO:

A monografia traz a comparação entre a atividade de Relações Públicas realizada no Brasil e na Alemanha. O estudo focaliza a trajetória histórica, leis e regulamentação da atividade e formação acadêmica do profissional de cada país com o objetivo de encontrar semelhanças e diferenças. Como metodologia optou-se por uma análise crítica e reflexiva. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica em busca de informações pertinentes ao assunto de modo a responder às perguntas levantadas no início e decorrer da pesquisa. Concluiu-se que existem realmente pontos em comum e outros que divergem com referência às Relações Públicas no Brasil e Alemanha, sendo que a questão da ligação da democracia com a profissão ficou bastante clara, tanto em um país, como em outro. A atividade tem muito a oferecer à sociedade, pode-se até dizer, que a sociedade precisa muito do profissional de Relações Públicas, entretanto ainda há necessidade de legitimar a profissão. Não por meio de leis ou regras, mas sim com a realização de um trabalho estratégico, ético e eficaz. Enfim, através de um trabalho Profissional.

1 - INTRODUÇÃO

Apesar de constatar-se a utilização de instrumentos de Relações Públicas desde os tempos remotos, até mesmo pré-históricos, a atividade em si, reconhecida e como profissão pode ser considerada nova, surgida recentemente em todo o mundo. Mundo esse que vem se transformando vertiginosamente. Tudo está cada vez mais próximo, cada dia mais perto. A globalização que há pouco tempo foi motivo de discussão, no sentido de “como as coisas irão mudar”, hoje é realidade. Percebe-se que diversas culturas tornam-se dia a dia parte do cotidiano de cada indivíduo. Talvez em pouco tempo, não falaremos mais de nações individuais, mas sim, de uma nação global.

Frente a essa realidade, torna-se relevante o conhecimento de cada cultura mais de perto, para podermos entender o que acontece a nossa volta, particularmente no Brasil, país onde nacionalidades das mais diversas fixaram-se.

Além disso, as empresas multinacionais estão em todo lugar, inclusive no Brasil. E essas, por estarem em diversos países, têm o dever de estabelecer um conjunto de atitudes e comportamentos que respeitem as culturas, tradições e línguas dos países onde elas se instalaram. Seria a criação de uma Educação Global, como denominou o Professor Turgay Amaç (2001, p.1). Por isso, para uma empresa obter sucesso, não são suficientes produtos, preços e logística; é necessária essa interação de culturas que é feita através da comunicação.

Aqui entra o trabalho de Relações Públicas. Não só nas multinacionais, mas, em toda empresa, organização, instituição ou sociedade que trabalha com diversos públicos e tem uma imagem a zelar.

Brasil e Alemanha são países distantes geograficamente e em muitos aspectos, bastante diferentes. O contexto histórico do Brasil e da Alemanha já nos mostra essas diferenças no que condiz à criação de cada estado. A Europa em si é um continente de longa história, passou por muitas mudanças, muitas guerras – tendo sido um dos centros dos dois maiores conflitos mundiais. Desde o início do século XIX o tipo de governo na Alemanha mudou várias vezes: Aliança Alemã, de Reino Alemão para República Weimar, seguido pelo Regime Nazista, a Segunda Guerra Mundial, e o estabelecimento de dois Estados alemães (um democrático e outro socialista), e a eventual reunificação em 1990.

O Brasil desde a colonização é um país unificado e não sofreu com divisões no seu território como a Alemanha – sabe-se, porém, que muitos movimentos aconteceram nesse sentido. Por outro lado, até o início do século XIX, o Brasil era colônia. Só conquistou sua independência política em 1822, ficando ainda dependente economicamente da Inglaterra. Depois disso, passou e passa por inúmeras crises políticas, econômicas e sociais.

Ambos os países tiveram por um período semelhante: a ditadura. No Brasil, marcada pelos militares e Getúlio Vargas, enquanto na Alemanha, marcada pelo Socialismo Nacional.

Então, como as Relações Públicas passaram por esses períodos ditatoriais, visto que a atividade está intimamente ligada à democracia? Este trabalho mostrará que a censura é um ponto comum entre Brasil e Alemanha. Mas para as Relações Públicas, o desfecho foi bem diferente.

A trajetória das Relações Públicas está intimamente ligada a esses acontecimentos históricos nos dois países onde a atividade vem sendo muito influenciada pelos modelos norte-americanos e, mesmo assim, tendo características peculiares.

Esta monografia vem, então, mostrar algumas dessas semelhanças e diferenças entre Brasil e Alemanha; entre Relações Públicas e Öffentlichkeitsarbeit com o objetivo de trazer esse conhecimento para o Brasil, para poder aprender com a experiência alemã.

O trabalho foi realizado em 4 etapas. A primeira etapa foi feita a partir de pesquisa bibliográfica sobre o histórico da atividade de Relações Públicas no Brasil e também na Alemanha, traçando-se um paralelo com o contexto histórico em que os fatos ocorreram.

A segunda etapa consistiu em pesquisar sobre as leis que regem a profissão no Brasil e na Alemanha, contato com alguns profissionais quando necessário para, então, descobrir como essas Leis – ou não Leis – influenciam no exercício da profissão.

Após análise das Leis, diretrizes e códigos de Ética, chega-se à terceira etapa para descobrir sobre a formação profissional em cada país, e então, pesquisar sobre as instituições que oferecem o curso. Como esse profissional é formado? Quais os campos de conhecimento oferecidos aos estudantes?

Numa quarta etapa, após a pesquisa do histórico, leis e formação acadêmica, tiram-se as conclusões possíveis, respondendo às seguintes perguntas:

- Como desenvolveu-se a atividade de Relações Públicas no Brasil e na Alemanha?
- O contexto histórico teve alguma influência no seu desenvolvimento?
- Como a atividade é realizada no Brasil. E na Alemanha? Como é visto o profissional de Relações Públicas?
- Quais são as leis que regem esta atividade em cada país?
- Qual é a formação desses profissionais?

O trabalho foi estruturado em 4 momentos com o objetivo de trazer de maneira clara todas as informações. O primeiro momento traz um breve recorte da trajetória das Relações Públicas no mundo. De onde, quando e como surgiu essa atividade.

O segundo e terceiro momentos são divididos em trajetória histórica, legislação e formação acadêmica no Brasil e Alemanha respectivamente, sendo que a parte alemã ainda traz uma visão geral de qual é a situação do profissional de Relações Públicas nos dias de hoje.

O quarto e último momento traz finalmente a comparação entre as Relações Públicas nos dois países, levando-se em conta os três pontos primordiais deste trabalho - contexto histórico, legislação e formação acadêmica – tentando-se, dessa maneira responder às questões da pesquisa.

2. - FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA – RELAÇÕES PÚBLICAS, O QUE É AFINAL?

Ela (Relações Públicas) serve dessa maneira o “jogo de poder democrático” DPRG (2002)

O termo “Relações Públicas” nem sempre é bem interpretado, ou melhor, muitas vezes não é entendido. Inúmeras são as definições sobre essa atividade, mas ainda assim, existe confusão É relevante destacar que sua função essencial é administrar e gerenciar a comunicação das organizações com seus diferentes públicos com o objetivo de conquistar a confiança deles [públicos], criando uma comunicação que gere entendimento de ambas as partes.

Neste trabalho utiliza-se principalmente o argumento de Poyares (1974, p.277) no que diz respeito à democracia. Segundo esse autor, qualquer tentativa de conceituação de Relações Públicas deveria, sem dúvida, ser colocada sob a perspectiva da democracia. Se isso não fosse considerado, qualquer definição tornar-se-ia um “emaranhado de descrições funcionais”. Afinal, as atividades de Relações Públicas estão comprometidas com o conceito de democracia. Nas palavras do autor “democracia é movimento, processo, não uma condição estática, parada, mas uma operação continuada, (...)” (POYARES, 1974, p.277), assim como o trabalho das Relações Públicas. As ações dessa atividade devem ser orientadas para a continuidade, afinal, sem continuidade não há processo completo e eficiente de comunicação. Portanto, não há entendimento e conquista de confiança dos públicos envolvidos.

De acordo com as diretrizes estabelecidas pela Associação Alemã de Relações Públicas (Deutsche Public Relations Gesellschaft, DPRG), o objetivo do Profissional de Relações Públicas deve ser sempre o de aprimorar a capacidade crítica dos públicos, construir e reforçar a confiança e assegurar uma comunicação justa em casos de conflitos. Dessa maneira ela serve ao “jogo de poder democrático” (trad.de: DPRG, 2000)1.

No artigo “Obtendo Resultados com Relações Públicas, Kunsch (1997, p.29-31) descreve a proposição teórica de quatro modelos de Relações Públicas exposta por Grunig:

O primeiro modelo caracteriza-se pela propaganda. É o mais antigo e dominante. É a comunicação de via única, ou seja, não há retorno do receptor para o emissor e a verdade completa não é essencial.

O segundo modelo é caracterizado pela informação pública no qual a comunicação também é de mão única, porém com a diferença de que a verdade completa passa a ser essencial.

O modelo assimétrico de duas mãos é a característica do terceiro modelo proposto por Grunig. Neste modelo já existe o Feedback, mas os efeitos ainda são desequilibrados, ou seja, a intenção é a persuasão. O objetivo beneficia somente à organização, mas não aos públicos.

O último modelo é aquele que vai de encontro com a idéia moderna das Relações Públicas. É o modelo chamado simétrico de duas mãos, no qual há uma busca de equilíbrio entre os interesses da organização e dos públicos. Modelo esse que está intimamente ligado à sociedade democrática, ou seja, ele atende às necessidades dessa sociedade e ao mesmo tempo só tem espaço para se desenvolver na democracia. Um depende do outro. O modelo depende da democracia, assim como a democracia depende do modelo simétrico de duas mãos.

Isso também acontece não só na sociedade, mas dentro de empresas, instituições ou organizações democráticas. A dinâmica das organizações modernas está baseada na continuidade e no crescimento. Ou seja, nos dias atuais, se uma organização parar, significa que ela está retrocedendo. Não há como uma empresa desenvolver-se sem levar em conta os aspectos globais internos e externos. O diálogo deve existir para proporcionar satisfação a ambos os lados. Ainda mais em se tratando de empresas que se instalam em países de culturas diferentes. À medida que a sociedade onde essa organização instalou-se sente-se invadida, a organização não tem como crescer. As relações com os públicos são baseadas em um processo contínuo de troca. As ações estratégicas de Relações Públicas visam exatamente a realização destas trocas de maneira que ambas as partes sejam beneficiadas. Além disso, segundo Neves (1998, p.167), as atividades precisam ser abertas, pluralistas, transparentes e democráticas

Confirmando ainda a ligação entre Relações Públicas e democracia, o Professor Turgay Amaç (2002a, p.1) afirma que “Public Relations kommt von Res Publica”, ou seja, Relações Públicas vem de RES PUBLICA (coisa pública). Com isso ele quis dizer que a atividade começou com a introdução da primeira República como forma de convivência. Portanto, pode somente ser praticada numa democracia onde a comunicação é uma coluna central, independente dos poderes judiciário, legislativo ou executivo. A comunicação deve andar paralela a esses poderes, mas nunca subordinada a eles. Para daí definir, estabelecer e manter a democracia de um país. Onde há democracia, há Relações Públicas em sua plenitude; e onde há Relações Públicas, deve haver democracia, ou, a atividade acaba sendo deturpada.

De acordo com o Manual Nacional de Assessoria de Imprensa (1994, p.10), a tarefa da área de Relações Públicas é identificar, apresentar soluções e melhorar o relacionamento dos assessorados com seus vários públicos, como acionistas, empregados, dependentes, associados, filiados, coligados e membros a nível interno. E, a nível externo, com fornecedores, consumidores, mercado, eleitorado, autoridades, comunidade e outros públicos, executando-se as relações com autoridades, jornalistas. O trabalho de Relações Públicas visa a promover o diálogo real e desenvolver um clima de boa vontade entre esses públicos internos e externos

Note-se que uma das mais citadas descrições sobre a atividade de RP, vem de Grunig & Hunt (apud BENTELE, 1997, p.22), que numa conclusão sintética diz que “public relations activity is part of the management of communication between an organization and its publics”2. Seguindo essa definição de J. Grunig e Hunt (1984, p.6), Bentele descreveu Relações Públicas como a administração do processo da informação e da comunicação entre as organizações de um lado e seu ambiente interno e externo (públicos) de outro lado. Relações Públicas servem a função de informação, comunicação, persuasão, construção de imagens, contínua construção de trustes, administração de conflitos e a geração de um consenso social”.

Na perspectiva alemã, o termo Öffentlichkeitsarbeit, foi redescoberto por Albert Oeckl (1909-2001) nos anos 50, que Oeckl protestou muitas vezes dizendo que essa expressão tinha sido por ele criada, entretanto estudos históricos mais recentes atestam que o termo já havia sido usado desde 1917(BENTELE, 2002). Oeckl descreveu Relações Públicas como “trabalhar com, pelo e para o público3 . Ou seja, aqui percebe-se que a visão já na década de 50 na Alemanha era de que as Relações Públicas tinham como dever não só informar o público; mas também, trabalhar com e por ele

Em 1964 o autor citado afirmou que o trabalho para Relações Públicas significa o esforço dirigido, planejado e contínuo para construir um entendimento mútuo, confiança e cuidado com isso. Onze anos depois, em entrevista a uma rádio alemã definiu:

Die öffentlichkeitsarbeit hat in erster Linie dafür zu sorgen dass eine weitestehende Aufklärung über alle einschlägigen Probleme geschaffen wird, dass über ein Unternehmen, über seine Entwircklung, über seine Erfolge, über seine Mißerfolge, über die Dinge, die im Unternehmen passieren, der Jahresbericht, die Bilanz, sämtliche Probleme an einer klar verständlichen und fairen Form der Öffentlichkeit nach innen und nach außen klargemacht werden (1975, p.3)4

No ano seguinte ele definiu Öffentlichkeitsarbeit como “informação + adaptação + integração” (1999, p.1). Em 1951, Carl Hundhausen (1893-1977) mostrou também que a comparação entre Relações Públicas e publicidade era feita, para definir Relações Públicas. Ele afirmou que “PR heißt Werben um das öffentliche Vertrauen”, ou seja, RP é a publicidade para conquistar a confiança pública. (Hundhausen, 1951, p.33).

Por outro lado,

Relações Públicas não deve persuadir (induzir), mas sim convencer; ela deve auxiliar através de informações dos diferentes lados do processo de formação (conquista) de confiança entre uma empresa e o seu público. Os intermediários (mediadores) nesse processo são a Mídia e seus “produtores”: jornalistas, redatores de rádio e televisão. Aqui existe uma diferença “vital” com relação à publicidade e propaganda. A publicidade paga por seu lugar no jornal ou comercial na TV. Já o Relações Públicas deve trabalhar arduamente pela área com informações convincentes e interessantes. Esse é também o motivo pelo qual PR e PP nas firmas alemãs são coordenadas quase sempre por dois setores separados. (BOSCH, 19--, p.1-2)5

Ainda sob a perspectiva alemã, para Bentele (2002), a imagem das Relações Públicas varia entre os diferentes públicos. Desde que o trabalho de Relações Públicas dificilmente é sentido diretamente pelo público em geral, há uma imagem um tanto contrastante entre jornalistas e a mídia, assim como, presidentes de companhias e outras pessoas no topo das empresas que podem interagir diretamente com as atividades de Relações Públicas. Os jornalistas têm uma imagem ambivalente da área de Relações Públicas. Por um lado eles reconhecem que o Relações Públicas é indispensável como uma fonte profissional de informação. Por outro lado, eles continuam a nutrir expressões negativas como “pretensão de Relações Públicas” ou “típico RP” (essas expressões se referem a exageros ou acontecimentos com o mínimo de conteúdo)

Percebe-se que apesar de toda contradição, há ainda um consenso sobre a atividade que se desenvolveu, por momentos, de maneira semelhante em ambos os países, e por momentos de maneira bastante diversa. Como por exemplo a questão da ditadura, quando, no Brasil houve o registro da utilização das ferramentas de Relações Públicas mais profissional já vista anteriormente feita pela AERP (Agência Especial de Relações Públicas); e na Alemanha, um quase que completo blackout, como que para preservar o nome da atividade.6

Enfim, a teoria de Relações Públicas vem recebendo contribuições a cada dia. E a cada dia vai ficando claro que só de teorias não vive um bom profissional. A teoria só é válida se associada à prática, que consiste não só na aplicação de todas as técnicas, mas também, no estudo do contexto histórico, social, político e econômico em que a organização está inserida. Levando-se em consideração diferenças culturais e comportamentais. Adequando-se e aprendendo com as diferenças e semelhanças entre duas nações.

2.1 RPs MUNDIAIS

A atividade de Relações Públicas reconhecida e profissionalizada pode ser considerada nova, apesar de constatar-se a utilização de seus instrumentos desde tempos remotos.

Para facilitar a compreensão da trajetória das Relações Públicas no Mundo, tomaremos emprestado a divisão sugerida por José Rubem Fonseca (apud OLIVEIRA 1971, p.8), assim como a outra classificação corrente também citada por Oliveira (1971, p.11).

Fonseca sugere cinco fases de desenvolvimento das Relações Públicas, descritas na Tabela 1:

TABELA 1 – Fases de desenvolvimento das Relações Públicas

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Fonte: OLIVEIRA (1971, p.8)

A outra classificação fica por conta de três períodos:

O primeiro, que iria de 1865 a 1900 nos EUA, seria um período em que pouca importância era dada à opinião pública.

O segundo é o da reação contra os trustes, quando surge a máxima: “O público dever ser informado”. (atribuída a Lee)

O terceiro, cujo marco inicial alguns autores situam em 1930, corresponderia ao reconhecimento de que os públicos, além de deverem ser informados, devem ser também compreendidos (atribuído a Edward Bernays)

Para um compreendimento global, começaremos utilizando a divisão de Fonseca seguida de Oliveira.

Talvez o exemplo mais antigo de material educacional e informativo encontrado seja um boletim produzido na antiga Suméria dizendo aos agricultores como cuidar de gêneros agrícolas. Esse acontecimento faria parte da fase teocrática.

Na fase intermediária, importância da opinião pública é reconhecida, sendo, mais tarde, durante um tempo esquecida. No século primeiro antes de Cristo, os romanos criaram a frase Vox populi;vox Dei, ou seja, a voz do povo é a voz de Deus”. Portanto, valorizavam o que a população pensava e falava.

Historicamente, para Penteado (1978, p.4), Júlio César tem sido considerado o mais antigo de todos os homens de Relações Públicas neste mundo. Aponta-se a sua iniciativa de editar, todos o dias, o mais remoto antepassado dos “jornais murais” – a “Acta Diurna”- em que dava conta dos sucessos ocorridos no Império Romano. Mostrando uma consciência de que “o público devia ser informado”.

A fase da Descoberta da Necessidade das Relações Públicas vem em 1623 quando o Papa Gregório XV criou a “Faculdade para a Propagação da Fé”, podendo ser considerada o primeiro uso em larga escala das Relações Públicas. Essa Faculdade foi criada pela Igreja Católica Romana para reter os seguidores e estimular conversões depois das seqüelas deixadas pela Reforma. Esta foi a origem do moderno termo “propaganda”.

Ainda nesta fase, na segunda metade do século XVIII entra em cena Samuel Adams, considerado um dos pioneiros das Relações Públicas principalmente pelo caráter contínuo, sistemático e organizado de suas ações de divulgação. Sam Adams foi um homem muito importante no começo da Revolutionary War. Em 1772, Sam Adams organizou os Commitees of Correspondence para, rapidamente, disseminar informações e notícias antibritânicas através das colônias. Sua principal habilidade era prender a atenção das pessoas através de seus escritos e discursos. Produziu folhetos, usou símbolos como o “Liberty Tree”, lançou “slogans”, escreveu artigos para os jornais das colônias – antigos artigos anônimos – difundiu as idéias da Revolução em reuniões e por correspondência. Tinha convicções de que organizando e mobilizando a opinião pública, conquistaria novos adeptos para a sua causa.

Com relação à expressão Relações Públicas, para R. A. Paget Cook, ex-presidente do Instituto de Relações Públicas, de Londres, foi Thomas Jefferson, terceiro Presidente dos Estados Unidos que, em sua Sétima Mensagem ao Congresso, teria utilizado pela primeira vez a expressão “Relações Públicas”. Sam Black, em “Practical Public Relations” escreveu:

the first actual use of the phrase `public relations` is thought to have been in 1807 when President Thomas Jefferson, drafting his `Seventh Address to Congress` in his own hand, scratched out the words `state of thought` in on place and wrote in `public relations` instead”. (GURGEL, 1985, p.6)7

Outro nome a ser citado, poderia ser Amos Kendall, membro do “Gabinete Kitchen” do Presidente Andrew Jackson, em 1829. Ele é considerado, ao lado de Samuel Adams, um dos pioneiros das Relação Públicas. Como principal conselheiro, redator de discursos, publicista e pesquisador de opinião pública (pollster), Kendall, que fora escritor e editor em Kentucky, organizou os serviços de Imprensa e Relações Públicas da Casa Branca.

Aqui, passamos a utilizar a divisão de Oliveira, chegando ainda à primeira fase de sua divisão ainda nos Estados Unidos. A guerra civil introduziu um período de caçada frenética ao dólar e de brutal exploração. Há uma mudança no próprio conceito de moral, a pobreza passa a ser considerada um distintivo de inércia e a riqueza um sinal infalível de virtude. A competição econômica passa a ser encarada como a luta pela existência e a sobrevivência dos mais aptos na ordem biológica. Nessa época é que aparecem os robbers barons8, industriais sem escrúpulos, que se dedicavam a negociatas, visando lucro fácil. (WEY, 1986, p.29). Nesse contexto é que William D. Vanderbilt, em 1873, num momento de ira, proferiu a célebre frase, na História das Relações Públicas: “The public be damned” 9. Atrás dessa explosão de Vanderbilt revela-se uma história sombria de excessos que seria uma das conseqüências patológicas da Revolução Industrial.

Porém, o público não poderia ser enganado e nem deixado de lado. Como já foi citado, há muito tempo o homem percebe a importância da opinião pública. Vale lembrar a célebre “Vox populi; vox Dei”. Parece que no momento de ira de William D. Vanderbilt, ele se esqueceu disso.

Inicia-se uma pressão dos próprios trabalhadores, contra os barões ladrões e surge uma literatura e um jornalismo de denúncia. (WEY, 1986, p.30). Afirmou o historiador Merle Curti:

As corporações (em 1890) começaram a perceber a importância da hostilidade combatente e da obtenção do favor público. A aparição do especialista em Relações Públicas foi um fenômeno inevitável se se considerar a necessidade dos serviços que poderia desenvolver. (GURGEL, 1985, p.9)

Inaugurou-se, de fato, o período em que jornalistas, publicitários, como Agentes de Imprensa ou Divulgadores, partiram para as formas institucionais de divulgação.

Marcando a segunda fase, surge o nome de Ivy Lee, considerado por muitos autores de acordo com a pesquisa, pai das Relações Públicas. Lee foi um dos primeiros a empregar o sistema de comunicação “hand-out” e facilitou amplamente o desempenho da missão jornalística e no conflito entre a indústria e os jornais. Durante a greve do carvão em 1906, publicou uma “Declaração de Princípios” que enviou a todos os editores de jornais da cidade. O princípio fundamental de Lee era que o público não podia ser ignorado da maneira como até aí era usual, na vida empresarial, nem enganado por dinâmicos assessores de imprensa como freqüentemente acontecera. (LOYD, p.15). Dizia a declaração de Lee:

Este não é um serviço de imprensa secreto. Todo o nosso trabalho é feito às claras. Nós pretendemos fazer a divulgação de notícias. Isto não é um agenciamento de anúncios. Se acharem que o nosso assunto ficaria melhor na seção comercial, não o usem. Nosso assunto é exato. Maiores detalhes, sobre qualquer questão , serão dados prontamente e qualquer diretor de jornal interessado será auxiliado, com o maior prazer, na verificação direta de qualquer declaração do fato. Em resumo, nosso plano é divulgar, prontamente, para o bem das empresas e das instituições públicas com absoluta franqueza, à imprensa e ao público dos Estados Unidos, informações relativas a assuntos de valor e de interesse para o público. (WEY, 1986, p.31)

Ivy Lee foi o primeiro homem a usar especificamente os termos “publicidade” e “divulgação” no trabalho de Relações Públicas. A primeira empresa a utilizar os serviços de Ivy Lee foi precisamente a grande companhia dirigida pelo homem mais impopular dos Estados Unidos aquele que mandara atirar sobre os grevistas, John D. Rockfeller. Através dessa primeira campanha de Relações Públicas, Ivy Lee conseguiu o milagre de transformar Rockfeller num grande benfeitor da humanidade. Pela primeira vez na história dos negócios norte-americanos, informações completas sobre os clientes estavam sendo colocadas à disposição, desde que apresentassem importância e interesse para o público. Com essa dupla manobra, Ivy Lee conseguiu de um lado, revelar os bastidores da indústria e do comércio e, do outro, erguer fundações filantrópicas (centros de pesquisas, hospitais, museus, universidades etc.), multiplicar as bolsas de estudos, facilitar as férias das crianças e a assistência aos deserdados. (CHAUMELYeHUISMAN, apud OLIVEIRA, 1971, p.6)

Talvez devido ao seu notável trabalho com as grandes empresas americanas, Lee provocou muitas contradições, a começar pela intitulação de “pai das Relações Públicas”. Segundo Chaumely e Huisman, já citados, as Relações Públicas permaneceram no olvido até o início do século e que a sua pré-história terminou apenas no momento em que o seu verdadeiro fundador, Ivy Lee, criou o primeiro escritório mundial de Relações Públicas, em Nova Iorque, em 1906. Porém, para Teobaldo de Andrade (apud OLIVEIRA, 1971, p.7) Ivy Lee ainda faz parte da pré-história das Relações Públicas.

De acordo com Hiebert (apud RAYMOND, 1915, p.17,18), Ivy Lee não pode ser considerado exatamente como “pai das Relações Públicas”, apesar de ter sido talvez o primeiro a se engajar num trabalho típico de Relações Públicas .Lee não se intitulou Consultor de Relações Públicas antes dos anos vinte e isso depois que outros já haviam feito uso da expressão. O autor afirma que Lee sentia-se incerto quanto ao título que melhor descrevesse suas funções e muitas vezes confessou não saber como chamar a si mesmo. Desde então percebe-se a dificuldade de definir a atividade de Relações Públicas. Lee exercia a atividade de Relações Públicas e não sabia como se intitular; enquanto, por outro lado, pessoas querem exercer a função, e não sabem exatamente o que fazer. É uma contradição.

1 Anexo D
2 A atividade de Relações Públicas é parte da administração da comunicação entre uma organização e seus públicos
3 Öffentlichkeitsarbeit heißt arbeiten in, für, mit der Öffentlichkeit.
4 Os Relações Públicas devem garantir que sobre o desenvolvimento, sucessos, insucessos, acontecimentos de uma empresa, relatório anual, balanço, todas as questões sejam relatadas de uma forma correta e claramente compreensível ao público externo e interno.
5 Öffentlichkeitsarbeit soll nicht überreden, sondern überzeugen, sie soll durch Informationen den wechselseitigen Prozeß der Vertrauensbildung zwischen einem Unternehmen und der Öffentlichkeit unterstützen. Vermittler in diesem Prozeß sind die Medien und ihre Macher: Journalisten, Hörfunk- und Fernsehredakteure. Hier liegt einzentraler Unterschied zur Werbung: Werbun bezahlt ihren Platz inder Zeitung oder den Spot um Fernsehen, Öffentlickeitsarbeitmuß sich dem Raum mit Überzeugenden, interessanten Informationen “erarbeiten”. Dies ist auch der Grund dafür, daß Öffentlichkeitsarbeit und Werbund in deutschen Firmen fast immer von zwei getrennten Zentralabteilungen koordeniert werden.
6 Esse assunto será retomado com maiores detalhes na seqüência.
7 Acredita-se que a primeira vez que se usou o termo "Relações Públicas" foi em 1807 quando o presidente Thomas Jefferson, esboçando seu "sétimo endereço para o Congresso" em seu próprio punho, rabiscou as palavras "estado de pensamento" em um lugar mas, ao invés disso, incluiu a expressão "Relações Públicas
8 barões ladrões
9 O público que se dane!

[...]

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Details

Title
Relações Públicas versus Öffentlichkeitsarbeit
Subtitle
Um estudo comparativo entre a atividade de Relações Públicas no Brasil e na Alemanha
College
University of Parana
Grade
1,0
Author
Year
2003
Pages
100
Catalog Number
V141001
ISBN (eBook)
9783640540815
ISBN (Book)
9783640540495
File size
2056 KB
Language
Portugues
Tags
Brasil, Alemanha, Öffentlichkeitsarbeit, Public Relations, Geschichte, Ditaktur, Propaganda
Quote paper
Katia Aiko Murata Arend (Author), 2003, Relações Públicas versus Öffentlichkeitsarbeit, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/141001

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