Na Ética Nicomaqueia I 6, 1096a 23-29, encontra-se um argumento que é motivo de debate entre os comentadores. Tal argumento deveria provar que o predicado “bom” é multívoco e, contudo, nenhuma interpretação até hoje conseguiu chegar a essa conclusão de um modo claro e contundente. Ao estudá-lo, vários outros assuntos vêm à tona: a homonímia do ser, geneticismo aristotélico, a possibilidade de uma metafísica, a definição de bom, a analogia, entre outros. Nosso trabalho se dedica a explicar a razão da invalidade do argumento e a incursionar nos demais temas em busca de uma correção satisfatória. A proposta geral é que não se peça que o argumento prove que bom tenha várias definições, mas apenas que haja várias realidades, referências, possíveis por meio desse predicado.
Sumário
1. NOTAS SOBRE O TEXTO
2. PRÓLOGO
3. QUESTÃO DA MULTIVOCIDADE DO BOM
3.1 O QUADRO
3.2 O ARGUMENTO
3.3 A PROPOSTA
3.4 O CONTEXTO
3.5 O PROBLEMA
3.6 INTERPRETAÇÃO MERAMENTE PREDICATIVA DA EXEMPLIFICAÇÃO E SUA CRÍTICA
3.7 INTERPRETAÇÃO IDENTIFICADORA DA EXEMPLIFICAÇÃO E SUA CRÍTICA
3.8 INTERPRETAÇÃO CRITERIOLÓGICA E SUA CRÍTICA
3.9 INTERPRETAÇÃO ATRIBUTIVA DA UNIVERSALIDADE ÚNICA
3.10 CONVENCENDO UM PLATÔNICO
3.11 HOMONÍMIA E MULTIVOCIDADE
4. NOTAS SOBRE A MULTIVOCIDADE DO SER
4.1 A PROVA DO GENETICISMO ARISTOTÉLICO
4.2 CONEXÃO FOCAL ENTRE A HOMONÍMIA TOTAL E A SINONÍMIA
4.3 CARACTERIZAÇÃO DA CONEXÃO FOCAL
4.4 O SER ENTRE A SINONÍMIA E A HOMONÍMIA TOTAL
4.5 O SER E A CONEXÃO FOCAL
4.6 ISOPREDICABILIDADE
4.7 UMA DIFICULDADE
5. O QUE SABEMOS SOBRE O BOM UNIVERSAL
5.1 UMA HISTÓRIA DA CIÊNCIA DO BOM
5.2 “MAS ENTÃO, COMO É DITO?”
5.3 BOM E ANALOGIA
5.4 BOM E CAUSA FINAL
5.5 A POSSIBILIDADE DE UMA CIÊNCIA DO BOM
Objetivos e Temas da Pesquisa
O objetivo central desta dissertação é analisar o argumento presente na Ética Nicomaqueia I 6 (1096a 23-29) sobre a multivocidade do predicado "bom". O autor busca investigar por que a tentativa de provar que o "bom" não é um universal único, baseada na teoria das categorias, tem sido considerada falaciosa pela maioria dos comentadores. A pesquisa propõe que a conclusão do argumento deve ser compreendida não como uma multiplicidade de definições, mas como uma multiplicidade de naturezas referidas pelo predicado, reavaliando assim a relação entre homonímia, ontologia e a possibilidade de uma ciência do bom em Aristóteles.
- O argumento da multivocidade do "bom" na Ética Nicomaqueia e sua recepção crítica.
- A relação entre categorias, homonímia e o predicado "bom".
- A conexão entre a multivocidade do "bom" e a multivocidade do "ser" (focal meaning).
- A validade e as limitações das interpretações existentes (predicativa, identificadora, criteriológica e atributiva).
- A possibilidade de uma "agatologia" ou ciência do bom no Corpus aristotélico.
Auszug aus dem Buch
O Problema do Bom em Geral para Aristóteles
Desde 1951, graças à fina percepção de Joachim, o argumento que provaria a multivocidade do bom por meio das categorias passou a preocupar grandes mentes do aristotelismo. Nomes como Hardie, Kosman, Ackrill e MacDonald deixaram suas ideias na tentativa de responder uma simples questão: como se dá o argumento? Como entender suas premissas para que chegue à conclusão? Parece uma coisa fácil, que bastaria umas análises lógicas para ser resolvida, mas pelo visto não é, há algo de verdadeiramente problemático aí.
Tanto há que, apesar de cada um desses pensadores ter acolhido os pontos de vista dos anteriores, feito críticas e apresentado sua própria teoria solucionadora, ainda assim o problema persiste e até hoje está em aberto. Na verdade, tamanha dificuldade para fechá-lo está dando a impressão de que não existe um modo correto de entender o argumento; Shields e Santas, últimas palavras no assunto, decretaram a impossibilidade de encontrar-lhe uma forma lógica aceitável: pese o que pesar, Aristóteles teria cometido uma falácia.
Resumo dos Capítulos
QUESTÃO DA MULTIVOCIDADE DO BOM: Analisa o debate acadêmico em torno do argumento da Ética Nicomaqueia sobre a falta de unicidade do bom, avaliando as principais interpretações e a estrutura do argumento.
NOTAS SOBRE A MULTIVOCIDADE DO SER: Explora o conceito de "ser" em Aristóteles, sua conexão focal (focal meaning) e como isso ilumina a discussão sobre a multivocidade do bom, preparando o terreno para a análise da unidade do bom.
O QUE SABEMOS SOBRE O BOM UNIVERSAL: Investiga a existência de uma ciência do bom no pensamento de Aristóteles, rastreando a evolução do tema desde obras mais jovens até a maturidade, e avaliando como o "bom" se relaciona com a finalidade e a ontologia.
Palavras-chave
homonímia, bom em geral, Aristóteles, ontologia, focal meaning, Ética Nicomaqueia, categorias, multivocidade, definição, substância, predicado, finalidade, analogia, universal, ser.
Perguntas Frequentes
Sobre o que trata esta pesquisa?
A pesquisa analisa o argumento aristotélico da Ética Nicomaqueia I 6, que questiona a unidade do conceito de "bom" e alega que este predicado é multívoco por se distribuir entre diversas categorias.
Quais são os temas centrais abordados?
Os temas principais são a homonímia, a teoria das categorias, a conexão focal (focal meaning) entre ser e bom, e a possibilidade de uma ciência do bom (agatologia) em Aristóteles.
Qual é o objetivo principal do autor?
O autor busca explicar a invalidade atribuída ao argumento aristotélico pelos comentadores modernos e propor uma correção interpretativa que veja a conclusão como uma multiplicidade de naturezas em vez de definições.
Qual metodologia foi utilizada?
O autor realiza uma análise exegética e lógica dos textos do Corpus aristotélico (especialmente Ética Nicomaqueia, Ética Eudêmia e Metafísica), dialogando com a literatura secundária clássica e contemporânea.
O que é abordado no capítulo sobre a multivocidade do ser?
Este capítulo explora a doutrina aristotélica da conexão focal do ser e como o ser cumpre um papel fundamental no argumento sobre a multivocidade do bom, oferecendo uma chave de leitura comparativa.
Quais são as principais palavras-chave da obra?
A obra é caracterizada por termos como homonímia, bom em geral, Aristóteles, ontologia e focal meaning, refletindo seu foco na lógica e metafísica aristotélicas.
Como o autor resolve a questão da "falácia" no argumento aristotélico?
O autor argumenta que o erro não está necessariamente no raciocínio de Aristóteles, mas na forma como os comentadores interpretam a conclusão, sugerindo que o foco deve ser nas realidades/naturezas e não apenas em definições linguísticas.
A Metafísica de Aristóteles admite uma ciência do bom?
O autor discute a ambiguidade dessa questão, notando que, embora Aristóteles pareça anunciar uma ciência do bom, falta uma tematização explícita e sistemática no Corpus, o que gera o debate entre os comentadores.
- Quote paper
- Hugo Bezerra Tiburtino (Author), 2010, O Problema do Bom em Geral para Aristóteles, Munich, GRIN Verlag, https://www.grin.com/document/311481